Sobre o Sertanejo Universitário, por Makely Ka

Das 100 músicas mais tocadas em rádios no ano de 2016, cerca de 80 foram do gênero intitulado sertanejo universitário, que vai se tornando hegemônico ao incorporar em si as estilizações de diversos outros – rock, funk, forró – e tornar-se uma espécie de híbrido genérico e padronizado da música brasileira popular. Sobre este fenômeno, o músico mineiro Makely Ka fez algumas considerações no seu perfil no Facebook. O tema merece ainda mais considerações e aprofundamentos, mas o blog traz a postagem dele como um ótimo ponto de partida, em especial pela sua avaliação política.


O sertanejo universitário dominou as rádios brasileiras na última década. Não tem para nenhum outro estilo: funk, axé, forró, pagode, technobrega, muito menos rock. MPB nem entra no radar.

Mas eu acho que não é necessariamente a música que as pessoas curtem. É a estética do som, o ambiente, a moda, tem toda uma construção em torno de uma certa oposição remota campo versus cidade, uma nostalgia do que não foi vivenciado, uma suposta pureza de sentimentos, enfim, acho que essa música representa o acesso a um lugar idealizado que de alguma forma representa a legitimação do agronegócio como panaceia. Uma certa monocultura de transgênicos estetizada. Explicando melhor: trata-se de uma monocultura, quanto a isso acho que não resta dúvida. O transgênico da expressão é um trocadilho com o transgênero, no sentido de que incorpora elementos de diversos gêneros, do pop ao country, da música gospel ao rock. Apesar disso, do caráter eminentemente urbano e atual, mantém um discurso de fundo, de ligação com o universo rural, ainda que seja sublimado.

O agronegócio também faz essa operação, utiliza o discurso de identificação com a terra mas planta transgênico produzido em laboratório enquanto engole o pequeno agricultor.

Sim, a sofrência venceu. Mais da metade dos hits falam de amores perdidos, de traições, de flagras. Mas as letras por si só não explicam o fenômeno. Tem música romântica nos mais diversos gêneros e seguimentos. Eu acho que não importa tanto a letra, mas a ambientação dessa música. Essas pessoas buscam identificação com um universo que elas não conhecem necessariamente, mas julgam que seja um lugar de sentimentos verdadeiros, incorruptível. É como se fosse uma reação tardia ao êxodo rural, um falso retorno às raízes. No fundo talvez seja o sentimento intuitivo, ainda que romantizado, de que a cidade, ou a sociedade contemporânea, deu errado. Então é uma tentativa de retorno ao natural pelo avesso. Tem gente que ouve essa música e acredita que são mais autênticos, que ouvem música brasileira de raiz.

O ponto pra mim é que o estético nesse caso é político. O discurso é difuso, mas o pano de fundo é um sentimento de pureza interiorana. É tudo muito simples, do ponto de vista harmônico, melódico e semântico. Talvez ajude a explicar o fenômeno o fato de que o Brasil saltou de uma sociedade majoritariamente rural para grandes aglomerados urbanos em menos de meio século. É portanto uma certa nostalgia tardia. Essa nostalgia de alguma coisa que se perdeu me parece uma questão central. Isso não tem tanto a ver com recorte de classe social, mas com um substrato sentimental de identidade nacional. Essa é uma hipótese. Acho que merece um estudo mais sério.

Mas continuo vendo as pessoas, os críticos principalmente, buscando respostas nas letras. Acho que essa é uma busca tautológica. Tenho convicção que não é nas letras que vamos encontrar as respostas para explicar o fenômeno. Elas dizem o que toda música romântica popular diz em qualquer época e lugar. Essa identificação é uma construção social lenta e gradativa. Novelas como “A História de Ana Raio e Zé Trovão”, da extinta TV Manchete, “O Rei do Gado” e “América”, da Globo, talvez deem pistas mais concretas para entender o caso. Tem a internet também. Mas a rede somente reflete a influência das rádios e TVs, não define nem alça esses nomes à fama. Isso porque a internet pode fazer diferença para determinado nicho musical, mas a geral ouve rádio e vê TV aberta. Sim, tem também o streaming, cada vez mais. Mas as plataformas que disponibilizam música por streaming ainda são insignificantes do ponto de vista desses grandes sucessos de venda, que se refletem em centenas de shows por ano. O streaming faz diferença no universo indie, pop, eletrônico e rock, que representam apenas um nicho de mercado.

As grandes rádios ainda são o bunker das gravadoras e das editoras multinacionais. O “investimento” mensal, conhecido como jabá, para uma música tocar numa rádio de alcance nacional, está em torno de 100 mil reais. Quem faz esse investimento é quem tem certeza do retorno. Além das rádios tem os programas de TV. Então, pra você tocar durante um mês em seis ou sete rádios de abrangência nacional e aparecer em três ou quatro programas da TV aberta, eu chuto por alto um “investimento” mínimo de 1 milhão. Essa é a lógica do mercado da música de sucesso. Claro que tem outros fatores. Não adianta uma música que não tenha apelo popular, ela não entra na “cadeia produtiva”. Tem a padronização estética que o Studio VIP do produtor Dudu Borges ajudou a formatar. Esse é um caso interessante, uma estética que definiu a sonoridade de Michel Teló, Luan Santana, Bruno e Marrone e quase todos os outros, direta ou indiretamente.

Ou seja, quem estuda os movimentos de massa, quem trabalha no campo da cultura popular ou quem simplesmente se interessa por música no Brasil, precisa mergulhar nesse universo e tentar entender. Não adianta simplesmente torcer o nariz e dizer que não gosta. A coisa está aí, não dá simplesmente pra ignorar.

Retomando portanto a relação do sertanejo universitário com o agronegócio mencionada no início, ela se dá menos pela identificação das letras com o universo rural do que por todo o entorno que cerca e fortalece esse vínculo. Há um investimento explícito e direto do agronegócio em feiras agropecuárias, festas de lavouras e rodeios que privilegiam e são o reduto exclusivo dessa estética musical. Mais do que isso, há patrocínio direto de empresas ligadas à grande produção de commodities agrícolas que bancam o início de carreira de muitas duplas e cantores sertanejos.

Não dá para dissociar isso do fato de que na última década, com uma pujança jamais vista, o agronegócio ganhou ministérios, teve todo tipo de isenção fiscal, expandiu fronteiras avançando sobre terras indígenas, quilombolas e áreas de proteção e conseguiu inclusive alterar o código florestal a seu favor. Portanto não acho que seja mera coincidência a hegemonia esmagadora do sertanejo universitário no universo fonográfico brasileiro atual.

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2 comentários em “Sobre o Sertanejo Universitário, por Makely Ka

  1. Reinaldo Pedreira Cerqueira da Silva disse:

    Vou prestar mais atenção nas emissoras de radio e Tv.

  2. Edu W disse:

    Muito pertinente e coerente.

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