Muitas perguntas sobre o Nego do Borel

 

O nome de batismo do Nego do Borel é Leno Maycon, porque a avó era fã do Michael Jackson e a mãe de John Lennon. Guardemos esta informação. A carga simbólica da junção do rei do pop com um dos maiores questionadores deste mesmo pop, que não hesitou em jogar com sua popularidade de forma política, será importante adiante. Em especial pelo fato de terem ambos chegado ao nome desta forma truncada, como que passados por um telefone sem fio.

 

Por outro lado, seu nome é Nego do Borel, e como ele há milhares, milhares de negos do Borel, comunidade da Tijuca perto daqui onde moro. Várias vezes, escrevendo este texto, ao iniciar uma frase com Nego tive a sensação de estar falando como na gíria carioca – nego faz isso, neguinho faz aquilo. Nego do Borel é mais um na multidão que conseguiu ser mais que um na multidão. Um que deixou de ser indistinguível dos demais. Um nego que chegou lá.

 

Dito isto, passemos à polêmica.

 

Me solta, porra despertou polêmica imediatamente ao ser lançado, e não se pode dizer que não fosse esta sua intenção, em especial pelo clipe, que na música pop tornou-se já elemento quase indispensável e complementar a canção, abrindo-lhe novos sentidos e frequentemente tomando a frente das interpretações, No caso, o motor do debate foi o beijo gay dado pelo Nego num homem – branco e de beleza bem convencional, por sinal. Fora o fato de surgir em cena na pele da Nega da Borelli, personagem que já apresentava em shows há uns cinco anos – basicamente um travesti.

 

A chama foi acesa quando algumas fotos do Nego com Jair Bolsonaro se multiplicaram na internet motivando o questionamento do que ele pretendia com o clip/canção. Se a intenção era uma afirmação em prol da diversidade, como ele chegou a afirmar, o que estava fazendo ao lado de um fascista? Daí foi um pulo para a acusação de oportunismo, e de ele estar simplesmente apostando no público LGBT em busca do chamado pink money, um mercado em franca expansão.

 

Mas antes de partirmos para uma chuva de perguntas, cumpre ainda darmos uma boa olhada no trabalho do Nego do Borel até aqui. E o que se vê é um sujeito desenvolto, que com frequência usa o humor (trabalhou como ator na versão modernizada dos Trapalhões) e, em especial, tem o senso de oportunidade para fazer avançar sua carreira. Inicialmente um MC convencional que abusava do tamborzão vigente no funk carioca, logo passou a flertar com toda tendência que lhe permitisse ampliar seu público.

 

Neste clip, Nego tenta dar continuidade a um alcance internacional que se iniciou com a versão de Você partiu meu coração (gravada por ele com Anitta e Wesley Safadão) para Corazón, pelo cantor colombiano Maluma, e que fez sucesso internacional. São claros os sinais de que o clip tem a função de apresentá-lo a um público estrangeiro, desde a abertura focalizando o Cristo Redentor, passando imediatamente para inscrições que identificam o Borel, e logo chegando a ele próprio, de forma didática. Ele entra em cena repetindo good morning e no megafone saúda Brasil, Miami, Russia, Paris, o mundo todo, e finalmente, o próprio Borel. Nego está pegando uma carona em Vai Malandra, ápice da estratégia de Anitta para alcançar o mercado internacional, e para isto faz o mesmo movimento: exacerba suas raízes ao mesmo tempo que as folcloriza ligeiramente para torná-las digeríveis.

 

Porém, seu surgimento travestido e o beijo gay embolaram o meio de campo. Nego parece ter mirado ao mesmo tempo em dois públicos distintos, e como resultado não apenas a militância LGBT, mas boa parte do seu próprio público recebeu mal o lançamento. Sua página no Facebook está repleta de recriminações, muitas citando os versos do rap Capítulo 4, versículo 3, dos Racionais:  Em troca de dinheiro e um cargo bom. Tem mano que rebola e usa até batom. O programa Papo de Segunda, mesa redonda formada por três caras brancos como eu e o Emicida, tratou do assunto:

Por mais que a discussão seja interessante – e seja o mote mesmo deste texto -, o momento culminante do debate acima está em 8:40, quando Emicida deixa o assunto de gênero de lado para dizer que o que mais o interessou foi a levada do funk em 150 bpm (batidas por minuto), e aponta que esta inovação vinda do Rio de Janeiro está causando uma tremenda movimentação na produção musical funk/rap/hip hop. O 150 bpm, mais que a simples aceleração do tradicional funk tradicional próximo aos 130 bpm, traduz-se num estilo novo. A nova velocidade aproxima a levada do compasso unário, quase tribal, e tem sobre a letra o efeito de potenciação – tudo é afirmação categórica, tudo é tempo forte. O refrão Me solta, porra dito e repetido sobre esta levada tem um efeito devastador. E o fato de o Nego usar exatamente esta levada para um clip com pretensões internacionais dá também o tom de um certo arrojo formal, sendo sua afirmação de origem simultaneamente uma demostração de não estar parado no tempo. Mais informações sobre o 150 bpm neste e neste ótimos artigos.

 

Só que Me solta, porra não é só um funk 150 bpm. Nem é só uma ponta de lança para o lançamento de uma cerreira internacional. Nem mesmo é um libelo pela liberdade de dançar, rebolar e subir e descer, como apregoa sua letra. Me solta, porra é a música em cujo clip o Nego do Borel, aliás Nega da Borelli, beija um cara. Portanto, por vontade dele, o clip de Me solta porra diminui o alcance semiótico da música na ânsia de lhe estender o alcance de público – seja por tentar atingir um público específico (o LGBT), seja por tentar atingir simultaneamente vários públicos diferentes. E aqui é a que a discussão se torna mais complicada, e começam as perguntas.

 

Primeira questão: qual o limite da cobrança de coerência ideológica ao artista? As patrulhas ideológicas, termo cunhado pelo Cacá Diegues para designar a cobrança dos meios intelectuais da época de que toda obra de arte fosse engajada politicamente, se desviaram para o campo identitário? Até que ponto as cobranças atuais são filhas das da década de 1970? Nego está sendo cobrado pela contradição entre anunciar apoio LGBT e posar com Bolsonaro simultaneamente, ou seja, sua obra estaria em contradição com sua vida. Até que ponto esta cobrança faz sentido? A vida pessoal deve necessariamente ser coerente com a obra? Até que nível de detalhe?

 

Mas há uma outra questão que se sobrepõe a esta e, até certo ponto, a anula. Até que ponto o posicionamento político pessoal do artista transborda na obra? Defendo sempre que a ação política da arte se dá pela via da estética, sob pena de se tornar datada. Pois é também pela via da estética que seria possível perceber o que o Nego do Borel realmente pensa? Até que ponto a vida pessoal (em termos de ideologia e formação) se infiltra irremediavelmente na obra e deixa nela suas marcas?

 

Minha mulher, que não sabia das fotos com Bolsonaro, ficou incomodada com Me solta, porra, e não apenas com o clip, mas com a música em si. Achou problemático ela ser cantada por um homem, travestido ou não, porque num baile a frase Me solta, porra será dita – ou precisa ser dita – não por homens ou travestis, mas por mulheres. São elas as assediadas preferenciais. Paula enxergou portanto um machismo no ponto de partida, implícito no viés do discurso que é uma reivindicação feminina mas é feita por um homem (ou um homem travestido, mas apenas como um personagem), como que roubando seu discurso – uma forma de mansplanning. Por outro lado, rebateu imediatamente a crítica feita por Francisco Bosco de que o gay feito pelo Nego era estereotipado. Afirmou que a esquerda branca e hetero que defende os LGBT preferiria que eles não fossem escandalosos, mas que muitas vezes são, na favela como em outros lugares, e que a acusação de estereótipo ao Nego na verdade esconderia um incômodo, na verdade seria também um disfarce do preconceito.

 

Mas a pergunta oposta também pode ser feita. Se o machismo do Nego do Borel se trai e invade a música feita para não ser machista, será a escuta também infectada pelo preconceito? Até que ponto a patrulha ideológica ou identitária se imiscui na escuta, na fruição estética, a ponto eventualmente de suplantá-la e desqualificar (ou qualificar) obras ou artistas? Ate que ponto ela é ou deve ser determinante? Nego está sendo condenado por machismo, por se vestir de mulher supostamente para ganhar o “pink money”, ou seja, cultivar o público LGBT sem ter com ele real afinidade. Esta crítica está sendo feita levando em conta a questão estética ou apenas política? E repito, esta pergunta vale tanto para a crítica negativa quanto para a positiva. Um amigo jornalista cultural relatou recentemente já ter recebido releases de trabalhos musicais ainda inexistentes, mas que fazem questão de frisar que o artista em questão é trans, esperando conseguirem espaço na imprensa por isso, mesmo sem terem nada mais a apresentar além de sua condição de gênero. O que dizer de nomes como Pablo Vittar e Lineker, que ganharam enorme visibilidade em boa parte por sua condição de transexuais, muitas vezes deixando em segundo plano a questão artística e musical?

 

Mas então novamente Paula vem me lembrar que é muito fácil afirmar que nomes estão sendo alçados artificialmente ao estrelato por sua condição de gênero, por uma espécie de moda trans, e desqualificar este fenômeno. Porém, ao longo de todo o século XX e ainda hoje, a música negra é apresentada ao público mais amplo por artistas brancos, que quase sempre conseguem muito mais reconhecimento (e dinheiro) que os negros que vieram antes – o rock é o caso mais evidente deste fenômeno. Se Lineker está sendo alçado ao estrelato artificialmente favorecido por uma inclinação recente ao público em favor do trans, podemos dizer que a fama de brancos desde Elvis Presley até Amy Winehouse se deve em grande parte à inclinação do público em querer ver brancos apresentando a música de que gostavam – e que era criada por negros. Claro, a questão étnica aqui é muito mais profunda que a de gênero, envolvendo culturas de vários continentes e o fenômeno da escravidão. Mas tratando estritamente do ponto de vista da escolha do público, em que pese o imenso talento dos brancos em questão, é evidente que eles ocuparam os lugares de inúmeros negros de talento igual ou maior, que não chegaram a ser reconhecidos ou o foram muito menos. Em que esta escolha, que se faz há décadas, é mais ou menos ideológica que a de Lineker ou Pablo Vittar fazerem sucesso no lugar de homens cis/hetero?

 

E finalmente, há a inevitável questão do funk. Pois, se o Nego é cobrado por suas posições, o funk como estilo e gênero musical é dez vezes mais cobrado – o próprio Emicida confessa o olhar enviezado do rap paulista, orgulhoso de sua consciência política, sobre o funk carioca, pretensamente despolitizado. E no entanto, assim como no caso de tantos gêneros artísticos criados pela população excluída, o que há de verdadeiro e o que de preconceituoso nesta crítica?

 

O vídeo acima, do canal de YouTube Antídoto, interrompe sua comparação no rock, mas poderia prosseguir até o funk ouse estender a vários outros exemplos. A maior parte dos estilos musicais que existem na música popular, senão todos, foram criados com um único intuito, que era fazer dançar e divertir, e na maior parte dos casos por uma população despossuída e marginalizada. E aí eu cito um trecho da excelente entrevista do pesquisador Acauam Oliveira para a revista Unisinos:

 

O funk talvez seja hoje a imagem mais bem-acabada do Brasil contemporâneo, de modo que se compreende muito do país a partir de um olhar mais atento para sua forma. Está tudo exposto ali, sem máscaras ou disfarces: racionalidade neoliberal selvagem em contexto de periferia; precarização do mundo do trabalho que resulta em uma noção perversa de empreendedorismo; dissolução dos lastros sociais; afirmação radical da potência dos corpos que se resolve por um lado em uma potência estética presente na dança (passinhos) e, por outro, em um autoritarismo presente nas letras de forte caráter injuntivo; a violência enquanto forma privilegiada de mediação social, que desvela o clima de concorrência irrestrita como um verdadeiro “Deus nos acuda”; e certa fusão entre transgressão e conservadorismo que politicamente tem potência tanto para derrubar governantes quanto para eleger um Bolsonaro.

 

O funk, assim como foi o samba, o rock, o jazz, a chacona, é um estilo que tem em si uma mensagem política que é a mesma que os outros trouxeram em diferentes épocas, que não é explícita em palavras, mas sim apenas na sua própria existência, e estas mensagem é basicamente: ESTAMOS AQUI, VIVOS.  Este é o segredo de sua incrível vitalidade. (há sim exceções como o rap paulista, criado já comum nível de politização e intelectualidade surpreendente. Porém, sua existência quase milagrosa não tira o mérito de nenhum outro). Em suas trajetórias, eles tendem a ser capturados pelo estabilishment, adaptados ao gosto da classe dominante, inclusive tonando-se eventualmente engajados estrito senso (pois a classe dominante não é homogênea), mas podendo tornar-se retrógados e conservadores, movimento que vai sendo atualmente experimentado pelo rock, em especial os estilos mais pesados. O funk cumpre sua tarefa de se reinventar, absorver estilos alheios como fez com o tamborzão e agora vai fazendo de novo ao misturar-se com sertanejo, pop, ao acelerar-se. E simultaneamente vai sendo absorvido e tornando-se conservador, sendo embranquecido e domesticado e adaptado a outros públicos.

 

E aqui voltamos ao Nego do Borel, um nego entre tantos outros, no meio de caminho entre Michael Jackson e John Lennon, acessados tão distorcidamente que nem seus nomes chegaram incólumes a ele. Nego do Borel é o exemplo acabado desta cultura que é sub não por ser inferior, mas por vir mesmo dos subterrâneos da sociedade. Nego do Borel é um agente duplo do processo de vitalização e venda do funk ao sistema, como aconteceu com tantos outros em tantos ritmos.

 

Não se trata aqui de livrar sua cara ou lhe dar carta branca com a desculpa de pouca instrução ou coisa parecida, longe disso (aliás, uma leitura possível e particularmente muito interessante para Me solta, porra seria a de uma resposta antecipadas às críticas que ele já sabia que viriam – pois se é evidente que sua intenção era lançar uma polêmica, nada mais adequado que dizer de antemão a quem lhe cobra isto ou aquilo, o acusa de hipocrisia ou oportunismo: Deixa eu dançar! Me solta, porra!). Sem dúvida é preciso apontar as incoerências tanto externas quanto internas de sua produção, e elas se tornam mais patentes na medida em que ele se coloca na fronteira do estilo – em outras palavras, sua pretensão de sucesso internacional amplificou as fissuras em discurso, as tornaram mais visíveis. Mas é bom notar que aqui o caráter injuntivo notado por Acauam e Francisco Bosco, do senta! chupa!, se converte sutilmente numa ordem em favor da escolha: o imperativo não vai na direção de que o ouvinte faça algo, mas permita algo. E, para além de julgamentos morais de rede social (que evidentemente todos estão livres para fazer também), o que mais interessa talvez seja entender a quantidade de dubiedades e desdobramentos de sua música, muitos dos quais provavelmente ele próprio não tem a chave, e como o funk se desenvolve cheio de contradições e contribui, inclusive com elas, para os debates (assim no plural), sendo hoje a voz de uma parcela da população que historicamente não é ouvida – como, mais uma vez, tantos outros estilos já foram.

 

E para terminar, duas perguntas mais: Até que ponto a mudança da sociedade se dá pela arte? Ou até que ponto se cobra dos artistas as mudanças que a sociedade resiste em realizar – a própria arte que em geral, e por conta própria, antecipa em si esteticamente as mudanças políticas da sociedade? Não tenho certeza. Mas enquanto eu escrevia este texto, Me solta, porra tocava na festa do playground do prédio de classe média próximo ao Borel. Ao menos ali o Nego chegou.

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Obrigado, Paula, pelas contraposições, não apenas estas, mas as de 18 anos de casamento que já abriram tanto meus olhos e ainda têm outro tanto a abrir.

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