Uma canção e seus ramalhetes

Há muitos paralelos entre a vida e carreira de Tavito e a de Zé Rodrix, seu parceiro em Casa de Campo, eternizada por Elis. Ambos fizeram parte do Som Imaginário, grupo inclinado ao rock progressivo que acompanhou Milton Nascimento na fase mais prolífica de sua carreira e por onde se revezaram alguns dos nomes mais ilustres do instrumental brasileiro; ambos passaram em seguida ao gênero rock rural, praticamente fundado por eles; ambos trataram suas carreiras musicais de forma algo descontinuada, inclusive atuando profissionalmente por anos em publicidade (e compondo jingles excepcionais, claro); e ambos tinham um bom humor à toda prova e eram queridíssimos por seus pares e entre si. Zé Rodrix se foi em 2009, e 10 anos depois foi a vez de Tavito.

Mas faltou uma coisa em comum, que é o fato de ambos serem menos lembrados do que deveriam – até por terem desinvestido de carreiras de sucesso para fazer só o que queriam e quando queriam. Se Zé Rodrix tem sua participação com Sá e Guarabira festejada até hoje em canções como Mestre Jonas, Tavito é lembrado praticamente por apenas uma composição, de seu álbum de 1979, que ainda hoje toca ocasionalmente nas rádios: Rua Ramalhete. É pouco, menos do que ele merecia. Mas Rua Ramalhete é um exemplo acabado da sua capacidade de artesão e merece uma escuta cuidadosa.

Rua Ramalhete, composta com Ney Azambuja, tem uma estrutura pouco linear: AABbC, ou seja, duas vezes a mesma melodia nas primeiras estrofes, uma segunda melodia que é abortada no início da repetição, que serve de ponte para uma terceira parte curta, o ápice da música, mas não um refrão, que neste caso não existe. Mas seria mais justo incluir, antes mesmo do A, algum outro símbolo para representar a introdução, levada pelo trompete de Marcio Montarroyos na gravação, e que tem a mesmíssima importância do restante das melodias da canção, senão mais, como veremos.

Pois um dos jogos mais interessantes de Rua Ramalhete é justamente o uso do tema da introdução, um compasso ternário encaixado quase à força dentro do binário da canção, e que surge duas vezes: em tom menor na introdução e em tom maior na parte B de forma surpreendente. Após uma parte A rememorativa na letra (Iniciada com Sem quer fui me lembrar e encerrada com Quanta saudade), a divisão da parte B, com a quadratura do triângulo, convida para dançar e põe tudo para rodar, ao mesmo tempo que a letra o faz – o deslocamento dos tempos fortes tem um efeito infalível. A mudança para tom maior da melodia já apresentada dá também um ânimo novo à canção, e o ouvinte vai sendo conduzido de estrofe a estrofe, por entre modulações que vão do menor para o maior e daí para a versão maior do que seria o relativo do tom.

Assim, passa-se de Em para E e daí para C#, para voltar a C#m no retorno da introdução, num crescendo gradual e empolgante, e enquanto isso a letra, que se iniciou falando do passado, assume em seguida um tempo presente em termos estritos – mas na verdade o ponto de vista do discurso muda. Ou seja, se antes fala-se do passado no presente, a partir da segunda parte fala-se do presente no passado, como que voltando ao passado na canção, e para, na frase final, lançar uma pergunta para o futuro. E esta pergunta é acompanhada pelo salto imediato de oitava acima na melodia, certamente um dos intervalos mais expressivos da música nacional, porque milimetricamente preparado desde o início da canção – justamente nele se consolida a última modulação. A abertura do acorde maior juntamente com o salto melódico são o momento máximo da canção, onde as lembranças se juntam a uma esperança de futuro.

A pergunta – Será que algum dia eles (os Beatles, citados logo antes) vêm aí / cantar as canções que a gente quer ouvir? – tem uma significação direta, imediata, e outra simbólica, naturalmente. É bom lembrar que, sendo a canção de 1979, é anterior ao assassinato de John Lennon. Isto dá à terceira parte um caráter duplo: ela tanto se insere no discurso do passado, da lembrança dos anseios de juventude, quanto no discurso do presente – o que significa que o desejo de ouvir aquelas canções permanece. Deste modo, os versos finais de Rua Ramalhete unem passado e presente numa esperança de futuro. A morte de John no ano seguinte tirou o caráter literal dos versos, permanecendo o simbólico: o desejo de ouvir as canções. Aquelas canções. E aí, embora tanto já se tenha falado deles, é preciso falar dos Beatles.

Tavito foi um integrante um tanto lateral e independente do Clube da Esquina, mas o foi. E sendo do Clube que tem entre suas canções-marco Para Lennon e McCartney, foi um dos que digeriu sua influência e a devolveu na forma tão particular de tratar harmonias e melodias dos mineiros, e da qual Rua Ramalhete é tributária. Mas Tavito – chamado por troça às vezes de Tavitles pelos amigos – não se limita aqui a prestar um tributo musical, e sim aponta na música do quarteto de Liverpool a transcendência que ela alcançou junto a uma geração – ou mais de uma. A música dos Beatles ganha gosto de passado com o correr dos anos, mas não deixa de apontar para diante e de simbolizar os sonhos da juventude e as esperanças de futuro. Rua Ramalhete toma emprestado dos Beatles não apenas um certo jeito de sequências harmônicas (com as cordas soltas da viola caipira que Tavito levou para seu violão 12 cordas), mas também, e principalmente, um desejo de dias melhores que ecoa na pergunta final e insiste: mesmo que eles não venham mais, ainda queremos ouvir as canções. Não à toa, estes versos não são cantados pelo próprio Tavito, mas pelo coro, reforçando a passagem ao ponto mais agudo da melodia, mas também dando a eles – os versos – este caráter mais amplo que a letra também tem ao passar repentinamente para um plural que pode incluir o ouvinte. Não é Tavito mais que canta, somos nós.

(P.S. E não à toa também, o tema ternário-dentro-do-binário que é o principal da canção vem sutilmente emprestado de um tema instrumental usado em Here comes the sun, de George Harrison, do álbum Abbey Road – obrigado pela lembrança no comentário, Marcio Holanda.)

Mas após o final, volta a introdução, e não volta apenas por uma questão de simetria, mas carregada de tudo o que foi dito e ouvido, e rememorando o passado nos elementos do arranjo que retornam. Rua Ramalhete tem uma base com violão de 12, baixo e bateria, sobrevoada por metais (que assumem a frente nesta introdução, enquanto tecem comentários ao longo da letra), um coro e a guitarra do mutante Sergio Dias. Estes três elementos se revesam na canção, eventualmente sobrepondo-se e somando-se . A guitarra, em especial, trata de atuar mais climática do que solista todo o tempo, até o instrumental final, quando tem seu grande momento.

E o que ocorre neste final é a volta do moto-contínuo binário-ternário, a volta da dança, no tom menor memorialista. A guitarra de Sérgio começa ainda suave, mas vai costurando por sobre o tema dos metais até soltar um intervalo dissonante e lancinante, que prepara dramaticamente a entrada dramática do coro – e aí o sentimento represado deságua com todos os elementos do arranjo de volta, reforçados uns pelos outros e por tudo o que já foi dito. O solo de Sérgio é espetacular, com uma leitura muito precisa da circularidade da melodia, o passado retornando e retornando, recusando-se a se apagar, e aproveita cada passagem harmônica e cada pausa, comenta o tema dos metais como quem conta histórias antigas, conversa com amigos de tempos. Porque, afinal, debaixo de toda esta estruturação de composição e arranjo, Rua Ramalhete é exatamente isto, uma despretensiosa conversa de velhos amigos lembrando os velhos tempos e torcendo por um futuro bom, e sua capacidade ser o que é nas mudanças de tom, solos de guitarra e saltos de oitava é que a faz grande, como foi Tavito.

 

3 comentários em “Uma canção e seus ramalhetes

  1. Belíssimo texto, como sempre. Só faltou falar da citação a Here Comes the Sun, tão bem encaixa na gravação.

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  2. cara, você disse tudo que eu sentia nessa canção mas não conseguia traduzir em termos musicológicos e literários. não que eu tenha hoje bagagem para isso, por mais que me interesse em aprender sobre música, o que faço constantemente desde 1978. ‘rua ramalhete’ sempre me comoveu, e eu sempre a escutei com o ouvido dos meus 15 anos que eu tinha na época em que foi lançada. também não creio que, com os ouvidos e a cabeça que tenho hoje, conseguiria chegar aonde você chegou nesse tema (rua ramalhete’ e, por extensão, o próprio tavito). adoro suas análises, elas me enriquecem como ouvinte e até coo pessoa. agradeço a você por elas todas e por esta em particular, neste momento de luto. deixei uma singela homenagem a esse artista no meu perfil https://www.facebook.com/angelodesouza. dê-me a honra.

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