O Carnaval contra o fascismo

O gari Renato Sorriso, que se popularizou sambando maravilhosamente enquanto varria a Marques de Sapucaí no intervalo entre as escolas de samba e que nos dias de não-folia varre a praça próxima de minha casa, não foi ao primeiro dia de desfiles este ano. Teve um bom motivo: o condomínio onde mora na Zona Norte do Rio, inundou com a chuva forte da noite anterior, e ele, embora tenha tido seu apartamento pouco atingido, pediu dispensa no serviço e ficou para ajudar nos reparos ao prédio e socorro aos vizinhos dos andares baixos, alguns dos quais perderam tudo. Porém, como o tempo melhorou, na segunda-feira ele foi ao Sambódromo fazer seu trabalho, e suas imagens sambando ao som do samba da Mangueira logo e espalharam pela Internet.

Decidi começar o texto com Sorriso em vez da polêmica da vez do presidente, em que ele tentou desqualificar de uma vez só todas as críticas recebidas de foliões e blocos ao longo de todo o carnaval com uma imagem que caracteriza quebra de decoro e poderia abrir caminho para seu impeachment. Tomei esta decisão porque, sendo o Carnaval a festa popular por excelência, seu foco não pode estar em autoridades, desequilibradas ou não, mas em quem efetivamente o celebra. E no ano de 2019, se houve uma manifestação que sintetizou em si as manifestações ocorridas por todo o período momesco, este foi o desfile da Estação Primeira de Mangueira, campeã do carnaval carioca.

O enredo da Mangueira, História pra ninar gente grande, tem inúmeras leituras e desdobramentos. Para começar, enxergo nele uma resposta ao enredo vitorioso da Beija-Flor de Nilópolis no ano anterior, Monstro é aquele que não sabe amar. Ao contrário do título, inspirado na história de Frankesntein, a Beija-Flor usou este mote para apresentar uma revolta generalizada, rasa e sem direção, partindo do princípio de que a causa de nossas mazelas é moral e não estrutural (aí sim, vide o título), reclamando de todos sem incomodar ninguém – e levando o título ao deixar para trás a crítica consequente e embasada da Paraíso de Tuiutí, que abordou a escravidão enraizada em nosso pensamento até hoje, como um prenúncio da revolta generalizada que levaria o fascismo ao poder meses depois.

A resposta da Mangueira se dá ampliando e estendendo o discurso da Tuiuti sobre a escravidão para toda a nossa história, antes mesmo da chegada dos africanos. A Mangueira inverte o olhar histórico, antes de cima para baixo, agora de baixo para cima, e lista nomes e mais nomes de heróis anônimos e esquecidos: Cunhambebe, Dandara, e entre eles Marielle Franco. A entronização do nome de Marielle, é um ato político fortíssimo, trazendo atrás dele todo o peso de história do Brasil revisitada, e colocando-a ao lado de abolicionistas como Luiz Gama e sua mãe, a revolucionária Luísa Mahin.

Muito já está se escrevendo sobre o desfile da Mangueira, e um pouco do que se pretendia pode inclusive ser lido no site da escola. Porém, neste blog de análise musical, a forma musical do samba-enredo é de grande interesse. E os dois melhores sambas de 2019 foram, fácil, e também profundamente diferentes, o da Mangueira já citado, e o do Salgueiro, para Xangô.

Antes de seguir, registrem-se os autores do samba: Demá Chagas, Marcelo Motta, Renato Galante, Fred Camacho, Leonnardo Gallo, Getúlio Coelho, Vanderlei Sena e Francisco Aquino. Dito isto, registre-se que o samba do Salgueiro é absurdamente empolgante. É um samba bastante tradicional na forma. com dois refrões intercalando estrofes narrativas para que o ritmo da escola não decaia, e também profundamente enraizado nas tradições que visita. O refrão central

Mora na pedreira, é a lei da Terra
Vem de Aruanda pra vencer a guerra
Eis o justiceiro da Nação Nagô
Samba corre gira, gira pra Xangô

poderia perfeitamente ser cantado em giras de umbanda como um ponto de saudação a Xangô, e não duvido nada que logo passe a ser. O pesquisador Luiz Antônio Simas (recorro pela primeira vez a ele aqui, mas o farei mais vezes mais à frente) comentou: Salgueiro entrou ao som do alujá , o toque de Xangô. Alujá significa “orifício”. O nome se refere ao mito de que, ao virar orixá encantado no fogo, Xangô deixou um buraco na terra. A bateria do Salgueiro, cognominada A Furiosa, levou este toque afro para dentro de sua batida, com o resultado que se viu. Mas é preciso também destacar a beleza melódica do samba, incluindo desenhos inesperados como o do outro refrão:

Olori Xango eieô
Olori Xango eieô
Kabesilé, meu padroeiro
Traz a vitória pro meu Salgueiro

As curvas melódicas do segundo eieô e de Kabesilé, ao estenderem a suspensão melódico-harmônica, tornam o verso final, com a resolução caindo sobre o nome da escola, muito mais peremptória. É uma solução extremamente elegante, que longe de romper com a forma tradicional, acrescenta a ela e a veste nobremente.

E contrastando com esta forma de maneira desafiadora, a ponto de embatucar Pretinho da Serrinha, que fez os comentários do desfile na transmissão pela TV, e que nem de longe é um desconhecedor do assunto:

E realmente, o samba da Mangueira é inesperado em sua forma. Para começar, logo o refrão de abertura – e neste caso o único, já contrariando a forma atual dos sambas-enredo – surge sem a preocupação de um impacto frontal no ouvinte::

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Uma das obrigações de um samba-enredo é não apenas apresentar o tema do desfile, mas também quem o apresenta. A menção/exaltação á própria escola é obrigatória, e em geral é feita em altos brados, no ponto culminante do samba, aquele que gruda no ouvido. O Salgueiro segue à risca a recomendação. Já a Mangueira o faz de forma algo enviesada. Vale a pena comparar as duas abordagens: O nome Salgueiro, após os dois adiamentos melódicos mencionados acima, vem numa afirmação peremptória sobre a fundamental do acorde de tônica: Traz a vitória pro meu Salgueiro. E para que não haja dúvidas, mais adiante, no encerramento de uma das estrofes intermediárias, o expediente se repete ipsis litteris: Lá vem Salgueiro, e que ninguém duvide disso.

No samba da Mangueira, tudo ocorre de forma diferente. O nome da escola abre a estrofe (e o samba), não o fecha. Mas, principalmente, e de forma totalmente contra-intuitiva, a melodia que conduz este nome desce suavemente sobre um acorde deslizante, e repousa sobre a terça deste acorde. Nada de afirmações incisivas – elas virão, como em Eu quero um país que não está no retrato, esta com uma melodia bem desenhada e que termina n o acorde de repouso, reforçando-a. Mas não a apresentação da escola. Esta vem humilde como a população que vai retratar, como que amalgamando-se entre ela. Sua intenção não é o enfrentamento, é o acolhimento, é abrir as portas e as alas para estes Brasil. Antes de orgulho, há um carinho por quem se é, carinho que encontra na letra seu reflexo no uso dos vocativos Meu nego e Meu dengo para se referir nada menos que ao Brasil.

Mas o inesperado tem seu preço. O samba da Mangueira, ao não seguir integralmente as convenções melódicas do gênero e colocar uma harmonia semovente sob suas notas, se torna bastante difícil de cantar, especialmente sem um instrumento harmônico de referência. É um samba belíssimo, e que funcionou exemplarmente na avenida. Mas outra vez o contraste com o samba do Salgueiro é claro: enquanto no da Mangueira a harmonia, ou ao menos a memória desta, frequentemente se faz necessária para compreender melhor a melodia, no do Salgueiro, à maneira clássica, a melodia traz em si implícita esta harmonia, mesmo em seus desenhos mais sinuosos, tornando o samba prazeroso de ser cantado mesmo acapella.

Mas há também coisas em comum no tratamento dado a seus sambas pelas baterias das duas escolas. Já foi mencionado o toque do Salgueiro para seu samba, em homenagem ao Orixá. Pois o mesmo Simas indica esta genial virada da bateria da Mangueira (mantenho o palavrão usado por ele e o corroboro):

Detalhe da bateria da Mangueira. Ela faz uma bossa de marcha militar na preparação do refrão. Só que aí a marcha militar saí e entra uma muzenza tocada nos atabaques! A muzenza é um ritmo tocado nos candomblés de caboclo! A muzenza se impõe sobre a marcha militar. Putaquepariu.

O momento mencionado por ele para a marcha militar é justamente o verso Quem foi de aço nos anos de chumbo, aludindo aos que combateram o a Ditadura Militar. E na sequência, os atabaques soam nos versos: Brasil, chegou a vez / De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês. Um ajustamento exato entre instrumentação e letra, realçando cada detalhe. Esta virada não ocorre na gravação em estúdio do samba, mas apenas na avenida – mas nesta é feita várias e várias vezes, provocando um comentário de Pretinho da Serrinha: se está dando certo, fazemos de novo!

E estes detalhes na fundamentação das levadas de bateria de cada escola, respeitadas suas diferenças, são também o que une estes enredos aparentemente tão diversos. Pois um enredo de escola de samba cala mais fundo em seus participantes e no público na medida em que tem sua identificação com a própria escola, sua história e sua coletividade, desvendada. Assim como Xangô está na identidade do Salgueiro, a Mangueira conseguiu fazer de seu enredo parte de si mesma a ponto de suas baianas terem desfilado vestidas… de baianas, apenas, e com isto estarem totalmente adequadas à história contada. Ambas as escolas conseguiram uma identificação visceral com o público, ao fundirem a si mesmas com seus enredos e incluírem o espectador na história. Cito mais uma vez o Simas:

O que tem de macumbeiro apaixonado pelo samba da Acadêmia é coisa séria. O que tem de macumbeiro silenciado que quer gritar Kawô Kabecilê é lindo. Não sei nem se o Salgueiro percebe isso, mas o samba e o enredo são, nesses dias de intolerância, profundamente políticos. Gritar “Oba Nishe Kawô! em tempos de terreiros atacados toda semana é político pra cacete.Os terreiros e os macumbeiros, aqueles que talvez não vejam o Salgueiro ao vivo na avenida, agradecem e tremem!

Esta identificação descrita veementemente acima não é, ao fim e ao cabo, diferente da que levou Robson Negão, o porteiro do barracão da Mangueira, a se apossar do troféu do título ao fim da apuração, e realizar uma volta olímpica completa na Praça da Apoteose, seguido por toda a comitiva da Mangueira, diretoria inclusa, porque o presidente da escola, Chiquinho da Mangueira, está preso… o presidente da República, após suas mensagens escatológicas, tentou desqualificar a Mangueira por isso, sem lembrar que foi do mesmo partido de Chiquinho, e considerando que uma obra de arte pode ser manchada por ações políticas acima dela e que ela não controla, como se a Capela Sistina de Michelangelo fosse manchada pela Inquisição Católica. Mas, mais que isso, sua decisão, anunciada discretamente durante o carnaval, de abrir as terras indígenas à mineração, exemplifica o quanto é necessário para ele desqualificar quem o identifica como um mero continuador dos que guiam de cima para baixo e à força a história brasileira por séculos, ignorando e combatendo os descritos na bandeira brasileira/mangueirense que fechou o desfile: índios, negros e pobres.

Faltou luz por horas a fio na quadra da Mangueira durante a comemoração do título. O motivo foi uma chuva curta, mas fortíssima, que caiu sobre a região ainda durante a apuração, tão forte quanto a que atingiu o condomínio de Renato Sorriso em Tomás Coelho dias antes, e que o tirou do primeiro dia dos desfiles. O nome de Renato bem poderia ser um a mais entre os listados no enredo da Mangueira. Mas tenho para mim que Renato sabe, que, mesmo sem ter sido citado nominalmente, e assim como Marielle, Dandara, Leci, Jamelão, Francisco José do Nascimento, Cunhambebe, Luiza Mahin, e João Cândido, Esperança Garcia, e Raoni Metuktire e tantos outros, ele está lá.

 

Veja o desfile, veja.

 

 

2 comentários em “O Carnaval contra o fascismo

  1. Servio Tulio disse:

    Muito bom, Túlio!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Helton Moraes disse:

    Ótimo post. Uma correção: me parece (ouvindo o vídeo) que a letra seria “Lei na terra”, ao invés de “Lei da terra”.

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