Vai Anitta, ser pop na vida

Dia desses fui a uma festa de aniversário em Bento Ribeiro, subúrbio carioca. Ao longo dela, a música Vai malandra tocou nada menos que oito vezes, por iniciativa de diversas pessoas que iam no laptop e mudavam a lista do Spotify – chegou a tocar três vezes seguidas. Enquanto isso, a dona da casa contava que é do bairro de Honório Gurgel, e quando criança uma certa Larissa, colega de classe de sua irmã, dormiu várias vezes em sua casa. E se espantava com o fato de mal tê-la reconhecido no seu show no Reveillon de Copacabana.

 

Pois realmente a transformação de Larissa em Anitta é algo impressionante. E mais impressionante é que ela tenha conseguido o feito de quase monopolizar o debate cultural no fim de 2017 com o lançamento de uma série de singles, culminando no de Vai malandra, incluídos no projeto CheckMate, que tem como intenção servir de ponta de lança para sua carreira internacional. Anitta teve celebrado o empoderamento feminino, a conexão com suas raízes, e também foi execrada pela exacerbação da sexualidade e dos estereótipos da favela para gringo ver, a atenção dada a ela foi considerada por uns como um retrato da decadência da cultura nacional e por outros como sua reinvenção em nível mundial, e em certo ponto não se conseguia sequer decidir se ela é branca ou negra.

Se houve uma coisa para que a polêmica sobre Anitta serviu, foi para trazer a nu a dificuldade da crítica musical brasileira em lidar com a música pop sem que a avaliação ideológica contamine irremediavelmente sua visão, a ponto de tornar determinante uma condenação ou exaltação, sem meios termos. É como um embate entre Theodor Adorno, o filósofo que criou a noção de Indústria Cultural e considera que o objetivo desta é a destruição da cultura pela sua transformação em produto, e o antropólogo brasileiro Hermano Vianna, cujo pensamento inspirou a chegada à mídia de massa de diversas cenas musicais regionais como o funk carioca, o Manguebeat e o Tecnobrega. De um lado, uma visão que considera toda massificação como forma de depreciação cultural, correndo o risco de incorrer em elitismo e numa visão pessimista incurável ao não apontar saídas para este dilema; e de outro, a visão que privilegia o aspecto social ao artístico e considera a vitalidade criativa destas manifestações superior a avaliações estéticas. De um lado apontando-se o imperialismo como agente destruidor irresistível de identidades, de outro uma confiança quase cega na capacidade antropofágica de nossa cultura reinventar-se diante destes agentes. Apocalípticos e Integrados, no dizer de Umberto Eco.

E no meio disto tudo, Anitta, que parece se importar bem pouco com a discussão que, afinal, a favorece por manter seu nome em pauta. Anitta que surgiu de dentro do universo do funk carioca, mas nunca foi funkeira, desde o início se enquadrou na vertente mais suave chamada de funk melody, mais palatável pela classe média e já explorada por artistas como Latino, Claudinho e Buchecha (estes oriundos do funk) e particularmente cantoras como Kelly Key e Perlla. Sua carreira deve ser considerada portanto desde logo uma diluição? Mas esta pecha não deveria ser posta também na Bossa Nova em relação ao samba? Esta é a opinião de José Ramos Tinhorão, que não esconde sua inspiração marxista. Porém, Tinhorão certamente não tem com relação ao funk o respeito que tem ao samba que inspirou a Bossa Nova, por considerar este uma forma de cultura nacional autêntica, enquanto o funk seria desde o nascedouro uma capitulação à influência estrangeira (como se o samba fosse também inteiramente autóctone).

Ainda assim, é possível estabelecer um padrão aqui, em que a Indústria Cultural, em duas épocas diversas – e portanto com pesos diferentes em cada ação – realmente toma uma manifestação tida como mais autêntica por ter nascido nas classes mais baixas e as leva para um público mais amplo mediante sua estilização. Note-se que até aqui não falamos de qualidade artística intrínseca, mas apenas do processo cultural/industrial. Trata-se apenas de deixar claro que uma condenação peremptória de Anitta apenas por considerá-la uma diluição é uma visão muito rasa do assunto, que ignora o fato de que praticamente tudo que chega a nossos ouvidos já foi mediado por esta mesma Indústria Cultural, e consequentemente é também em algum nível uma diluição. Será então apenas uma diferença de gradação? A diluição na massificação será uma espécie de mal necessário para que as manifestações culturais cheguem a um publico maior, a ser dosada o mínimo possível mas impossível de ser evitada?

Não creio. Ou melhor, creio que esta abordagem unidimensional leva a um beco sem saída, por deixar de lado a contribuição artística passível de ser realizada por esta mesma massificação, ao considerar a transformação necessária para a ampliação de público como algo maléfico a priori, como se esta tivesse o condão de matar a manifestação que a originou. Não me consta que o samba morreu. Mas sim, ele foi transformado de volta pelo surgimento da Bossa Nova, assim como o baião foi transformado de volta pela estilização dele realizada por Luiz Gonzaga, ao trazê-lo para o Rio de Janeiro e à Rádio Nacional. E nem por isso Luiz Gonzaga será amaldiçoado, ao contrário (embora Ruy Castro, autor da melhor biografia da Bossa Nova, execre efetivamente a chegada do baião numa passagem de seu livro, o que demonstra mais uma vez como a avaliação estética pode ser embaçada pelas parcialidades ideológicas).

E o que dizer então da internacionalização? Pois o objetivo de Anitta é claramente conquistar o mundo. Ela quer ser entronizada no panteão das divas pop fundado por Madonna e que tem Beyoncé, Lady Gaga, Rihanna, Shakira e outras menos votadas. E ela sabe que a máquina do mercado musical brasileiro ganhou musculatura graças ao sucesso quase acidental de Ai Se Eu Te Pego com Michel Teló. Anitta conta com o exotismo de sua origem para dar o salto que falta. E tem espaço para isto no panteão: Shakira é colombiana, Rihanna das Bermudas. O sotaque faz bem, ajuda a diferenciar o som e cria nichos de mercado. Anitta sabe disso, sabe que seu grande trunfo não está nos EUA, e sim em Honório Gurgel.

E novamente surge a discussão de que, para galgar este patamar, ela terá certamente que se descaracterizar e apresentar uma visão estereotipada de Brasil. Como fez a Bossa Nova (aliás, um dos singles de Anitta no projeto CheckMate é justamente uma Bossa Nova, como que para situar o ouvinte estrangeiro de sua origem. Anitta não hesita em usar a memória do sucesso internacional da música brasileira a seu favor.)  O que nos remete à primeira cantora brasileira a ter uma carreira internacional, e que enfrentou exatamente esta acusação, de ficar americanizada: Carmen Miranda.

 

 

Do you like my hips to hypnotize you? (Você gosta das minhas ancas te hipnotizando?), pergunta Carmen, bem em linha com a letra de Vai malandra. Assistindo os vídeos de Carmen aqui e em Hollywood e conhecendo sua história, ficamos com a impressão de que todo o debate em torno de Anitta é muito velho, um recalcado que sempre volta. Pois Carmen enfrentou estas mesmas questões demostrando na prática a complexidade delas e dando-lhes respostas inquestionáveis: ela foi uma estereotipagem, uma diluição, uma simplificação para gringo ver, e também um enriquecimento do imaginário brasileiro, influenciando a própria brasilidade de volta ao aparecer nos filmes americanos. A música brasileira não foi a mesma depois de Carmen Miranda, e isto se deve em grande parte ao ícone que ela se tornou graças a sua ida para os EUA.

Mas Carmen cantou alguns de nossos maiores autores, Ary Barroso, Dorival Caymmi, dirão com razão. e aqui chegamos inevitavelmente à crítica musical propriamente dita. Mas para seguirmos temos que antes especificar os parâmetros que usaremos, à parte de julgamentos morais de representatividade ou autenticidade. E o que a escuta revela é que a música de Anitta é, sim, um pop de qualidade que usa de forma inteligente influências diversas. Não tem a densidade buscada por algumas destas cantoras como Beyoncé em seu Lemonade, álbum conceitual sobre a jornada de descobrimento de uma mulher, e nem pretende ter. Sua pretensão é outra. Cada single de CheckMate aponta numa direção diferente: além da bossa nova (em inglês) já mencionada e o funk de Vai malandra, ela flerta também com o pop latino cantando em espanhol, como que testando caminhos, tateando em busca de uma porta. Provavelmente todos serviram de preparação, mas não há dúvida de que o caminho de Vai malandra, de retorno às origens, se mostrou o mais interessante, tanto em termos de reação quanto de novidade musical.

Pois em Vai malandra ela investe no que há de mais novidade no cenário da música pop nacional, que é o surgimento de uma corrente de funk paulista cujos maiores expoentes estão no canal de YouTube do produtor Kondzilla (e a junção de estéticas do funk carioca e paulista em Vai malandra é um indício tanto do direcionamento ao exterior da carreira de Anitta quanto já também da influência que ela começa a imprimir de volta). Assim, embora a temática de Vai malandra seja tipica do funk carioca pelo modo de abordar o erotismo, a sonoridade abre mão do típico beatbox de tamborzão (percussão vocal que aproxima a levada de funk da do maculelê – que de resto Anitta nunca utilizou) em prol de uma percussão eletrônica mais esparsa que encontra similaridades em gravações recentes do pop americano, e para isto Anitta se utiliza da dupla de produtores Tropkillaz, brasileira com atuação no exterior. Se nas demais músicas do CheckMate Anitta mostra escassa originalidade e procura basicamente imitar padrões de sucesso, em Vai malandra ela mostra o cartão de visita. Um ponto fraco: o tom da canção, ideal para Mc Zaac, é muito baixo para ela, o que leva sua voz, já pequena, a quase desaparecer. Ao vivo no Reveillon, ela teve enorme dificuldade para cantá-la.

Em suma, Anitta está tentando se equilibrar simultaneamente em várias cordas bambas. Quer se tornar internacional sem deixar de ser brasileira, ser paulista e carioca sem despertar a ira nem de uns nem de outros, agradar a seu público conquistando outros públicos diversos, conquistar os EUA e manter o pé em Honório Gurgel. Escolheu para isto a arena da música pop, com todas as suas limitações e possibilidades de reinvenção, e é nesta arena que deve ser avaliada, excluindo-se a atribuição de méritos pelo sucesso ou a falta dele. Pois se há certamente muitos trabalhos e músicos de maior qualidade que ela no Brasil, há bem poucos dispostos à encarar a máquina de moer carne para ampliar seus públicos, seja por terem mais a perder artisticamente ou por não admitirem as transformações inevitáveis que lhes serão impostas para isto.

Imagino perfeitamente o que se poderia dizer (e provavelmente se disse) dos dois primeiros álbuns dos Beatles, musicalmente muito vigorosos e pouco originais, e que no entanto lhes granjearam uma enorme popularidade. Não, Anitta não será uma nova Carmen Miranda, nem beatle nem Beyoncé, e se tentar sê-lo fracassará redondamente. Ela já ultrapassou a fase de menina de sucesso acidental para se tornar uma cantora pop nacional, e agora precisará forjar uma identidade musical que lhe permita dar um passo além, e mostrar a capacidade de ser original neste universo, bem além de preencher a cartilha com competência. Vai malandra é um primeiro passo neste sentido, uma composição muito simples que se tornou mais complexa pelas camadas de produção acrescentadas – algo típico do pop. Nela Anitta começou o caminho dialético de perde-ganha que pode ou não levá-la ao estrelato internacional, a se tornar um ícone brasileiro, para o bem e para o mal. Espero sinceramente que ainda cause muito furor na nossa crítica musical, e que esta passe de fase junto com ela.

Da Bahia ao Maranhão, via Minas – por Leonardo Davino

Leonardo Davino é um estudioso sobre Literatura e música que durante o ano de 2010 enfrentou o tremendo desafio de fazer a análise de uma canção por dia (!) O resultado foi o blog 365 canções. E quando o exercício auto-proposto acabou, ele logo achou um modo de estendê-lo. Assim, hoje ele tem o blog Lendo canção, que pelo título considero desde já primo deste, com a intenção de ouvir, acompanhar e ler de modo crítico e ensaístico a canção mediatizada criada a partir dos anos 00, e dividindo o foco entre as poéticas vocais (pois uma canção que muda de intérprete muda a sim própria junto) e a metacanção (a canção que fala de si mesma, prato cheio para análises, mas também a relação entre canções). Trago um exemplo das análises do Leo, que partem de viezews muito diferentes dos meus – o que é ótimo – recomendando ao mesmo tempo seu blog. Esta se concentra na canção Feira de Mangaio, de Sivuca e Glorinha Gadelha, na gravação de Clara Nunes (que não foi composta nem gravada depois de 2000, mas e daí?) Mas o que me encantou nela foi a ponte que ele enxerga e assinala quase de passagem, partindo de Carmem Miranda e chegando a Rita Ribeiro através de Clara, por ambos os trajetos a que se propôs: pelo diálogo entre seus repertórios e entre suas vozes brasileiras, espalhadas no mapa, encadeadas no tempo. Eis aqui:

_________________________________________________________________________________

Um dos grandes benefícios da remasterização sonora é a possibilidade que ela nos dá de contato com artistas e vozes que circularam “presencialmente” por outras épocas. Se a gravação vocal em si já amplia a noção de permanência e presença do artista, cuja voz pode ser acessada ao sabor do prazer do ouvinte, a remasterização traz para nosso redor vozes registradas noutros suportes e técnicas. E isso é maravilhoso. Desperta comparações, promove novas análises e aproximações entre os próprios cancionistas.

Penso nisso quando ouço Rita Ribeiro, em sua cartática performance tecnomacumba, cantar acompanhada por um vigoroso coro os versos “Saia do mar, linda sereia, saia do mar, vem brincar na areia” e me vem à lembrança da imagem de Clara Nunes na TV, sambando à beira mar, com o vento buliçoso balançando seus cabelos soltos. E assim sou levado a pensamentos que só a experiência estética (me) oferece.

A imagem que resulta da sobreposição imaginativa de Carmen Miranda e seu turbante frutal e Clara Nunes e seu chocalho amarrado na canela é reveladora: desperta uma entidade feita de “amor da cabeça aos pés”, pura dança e sexo e glória. Tutti-frutti hat e chocalho. Uma portuguesa-brasileira até o último balangandã e uma mineira “filha de Angola, de Ketu e Nagô, de Ogum com Yansã”.

Ambas unidas inconsciente e (talvez) involuntariamente numa ação sincrética. Situadas em “um espaço de (mais raramente harmônico que conflituado) de fusões, transfusões e confusões. Espaço de convergências, justaposições, amálgamas, padês”, na definição de Antonio Risério para sincretismo, em A Utopia brasileira e os movimentos negros.

Do “tabuleiro da baiana” à “feira de mangaio”, há uma cordialidade antropofágica entre os signos de africanidade e europeização. Por isso não entendo quem analisa a mestiçagem no Brasil apenas pelo viés do embranquecimento da cultura afro. Subestimando a capacidade de reinvenção e manutenção dessa cultura.

Guardada no disco Esperança (1979), “Feira de Mangaio”, de Sivuca e GlorinhaGadelha, encontra na voz e na persona artística de Clara Nunes a melhor representação. A sofisticação na hibridização dos elementos verbais e melódicos dançam ao ritmo do remelexo de Clara Nunes.
Tal e qual a baiana do acarajé defendida por Carmen Miranda, Clara Nunes aqui é uma feirante a cantar e oferecer suas prendas e lindezas: “Fumo de rolo arreio e cangalha (…) Bolo de milho broa e cocada (…) Pé de moleque, alecrim, canela”.

Mas transmutada no sujeito da canção Clara é também uma observadora e cantora da cultura popular (ainda) não mediatizada: cindida entre o urbano e o interior. Como não acreditar (e visualizar a cena) quando ela canta que “tem um sanfoneiro no canto da rua / Fazendo floreio pra gente dançar / Tem Zefa de purcina fazendo renda / E o ronco do fole sem parar”?

Clara Nunes canta tudo com uma verdade (alegria) irresistível. Há uma potência mestiça em mutação na sua performance. “Nossa população nunca foi obrigada a amputar antepassados. É majoritariamente mestiça. E se reconhece como tal”, anota Risério. Clara Nunes identificava isso e transformava o Brasil mestiço em objeto estético. Como Carmen também fez a seu tempo.

“Vem desde o tempo da senzala / Do batuque e da cabala / O som que a todo povo embala / E quanto mais o chicote estala / E o povo se encurrala / O som mais forte se propala”, diz o sujeito de outra canção do repertório de Clara Nunes intensificando a discussão.

Carmen e Clara deram vida (voz) a sujeitos comuns, interpretaram canções de rápida identificação popular. Para o povo não se desesperar, elas não deixavam de cantar. Duas sereias cantando pelos sete cantos a tolerância, a democracia, o diálogo entre culturas afins, que se desconheciam, mas que se reconhecem.

No tabuleiro da baiana – de Ary Barroso, com Carmen Miranda

Feira de Mangaio – com Clara Nunes

Cocada – Rita Ribeiro