Musicoterapia e história mundial

Transcrevo aqui trechos de um livro de Luiz Antonio Millecco, musicoterapeuta carioca, criador da primeira técnica brasileira de trabalho clínico musicoterapêutico, chamada Músico-verbal. Além disso, era pesquisador do espiritismo, médium vidente (apesar de cego de nascença), e compositor de mais de duzentas músicas. Sua visão da arte como parceira do processo de auto-conhecimento permeou norteou seu trabalho, e sua visão humanística unificou sem misturar as questões religiosas e profissionais em sua vida.

Os trechos são de seu Música e Espiritismo. Tirei as referências espíritas, já que o blog é sobre análise musical e não sobre religião. São do capítulo A Música e a Evolução Humana, divisão Iso Coletivo ou Cultural, em que ele mostra como a produção musical de uma época é uma leitura desta época, às vezes mais acurada que a de historiadores ou sociólogos. Como tenho feito, farei outro post mais adiante partindo deste para tratar do assunto. Boa leitura.

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Há em musicoterapia um princípio que é chamado princípio de Iso (‘iso’, em grego, significa ‘igual’). Esse princípio estabelece que, na abordagem terapêutica, deve ser levado em consideração o tempo mental do cliente. Caso se trate de uma depressão, a música eventualmente empregada deve ter o tempo lento (andantes, adágios etc.). Em se tratando  porém de agitação ou mania, o tempo musical há de ser igualmente agitado (alegro, presto etc.)

Pois bem, o princípio de Iso tem caracterizado os vários momentos históricos da Humanidade. Durante a Idade Média, por exempo, o Iso era, em geral, lento quanto à música sacra e um tanto menos lento quanto à música chamada popular.

Com o advento da Renascença, deu-se um fenômeno curioso: a música chamada erudita foi-se caracterizando por um tempo cada vez mais rápido até o Barroco/ Clássico. A partir daí, o tempo foi ‘ralentando’, ou seja, tornando-se cada vez mais lento. Com a música popular não foi diferente: seus andamentos foram-se tornando cada vez mais rápidos até a chamada Belle Époque do foxtrote, do charleston e outros rítmos. A partir da Segunda Guerra, porém, o tempo musical passa a ‘ralentar’.

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Conforme veremos adiante, a música acompanha o homem em casa ou fora de casa. Ela é o escoadouro natural das forças que dormem tanto no inconsciente individual quando no ‘coletivo’.

O princípio de Iso não se refere, porém, apenas ao andamento, mas também às estruturas timbrísticas, ou seja, aos intrumentos empregados, ao emprego maior ou menor da percussão (bateria, tambores etc.). A propósito, gostaríamos de ressaltar dois fatos que nos parecem bastante significativos:

1- a Segunda Guerra Mundial foi precedida por um grande sucesso do fox. Dizia-se, então: quem sabe andar sabe dançar fox. Ora, o andar nada mais é que a marcha e a marcha lembra exércitos. Por outro lado, refletindo o surto industrial da época, surge uma Rapsody in Blue, de George Gershwin. Nessa melodia, o clarinete reproduz, nitidamente, a sirene das fábricas.

2- a música atual é extremamente ruidosa, repetitiva e de tempo lento. Ressalte-se a influencia massificante da mídia. Ainda assim, que sentimentos, aspirações ou inquietações estara refletindo a música de nosso tempo? Provavemente Herman Hesse nos ofereça a pista desse mistério. Em seu livro O jogo das contas de vidro, cita ele um pensamento do antigo escritos Lui Bu We wm sua obra Primavera e Outono: …”quanto mais ruidosa a música, tanto mais melancólicos se tornam os homens; tanto mais decadente o país, tanto mais próxima a queda do príncipe.”

Que estará nas entrelinhas ou, quem sabe, dentro das linhas desse pensamento de Lui Bu We?

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Ora, nenhum século foi mais turbulento que o século XX.

Ele viu duas grandes guerras; assistiu à Revolução Russa, à Guerra Fria, aos movimentos hyppies, às ditaduras na América Latina, À revolta estudantil de maio de 1968, na França, ao “impeachment” de dois presidentes da República, um nos Estados Unidos da América do Norte e outro na América do Sul, mais especificamente no Brasil.

É claro que a música não poderia deixar de refletir toda essa turbulência.

Durante a Segunda Guerra, por exemplo, de par com as canções patrióticas, ressurgia Lili Marlene, antigo sucesso da Primeira Guerra. Lili Marlene era uma espécie de protesto-lamento, refletindo asituação dramática do soldado que deveria abandonar a cara afeição de sua amada, substituindo-lhe a voz carinhosa pelo troar sinistro dos canhões.

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Durante a guerra do Vietnã, a dissonância estridente das guitarras refletia o desespero pacifista da juventde.

Por sua vez, já no início da guerra fria, o imortal Charles Chaplim encantava a todos com sua nostálgica Luzes da Ribalta.

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