Duas rezas, por Zélia Duncan

Uma das coisas que gosto de fazer neste blog é colocar lado a lado duas canções que tratem de assuntos correlatos sob pontos de vista opostos, e analisar as abordagens. Descobri há pouco tempo o blog da Zélia Duncan Questões Musicais, hospedado no sítio da Revista Piaui. Pessoalmente, sem a considerar uma grande compositora, tenho em alta conta as escolhas do repertório que ela grava de outros autores. Neste post, ela faz um paralelo que achei muito curioso entre duas músicas de sucesso nas redes sociais por motivos bem diversos, e que traçam caminhos também paralelos: indo talvez, de alguma maneira, ambas na mesma direção, mas sem nunca se encontrarem.

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Outro dia, de tanto ouvir falar aqui e ali, fui procurar assistir ao novo clipe de Lady Gaga, que se chama Judas!. O clima pretende ser um épico-religioso-pagão. A produção é mega em tudo. Motocicletas pra começar. Ela na garupa de um Jesus que, no lugar de um capacete, traz uma coroa de espinhos estilizada em cima de dreadlocks. Tem de tudo um tanto. Roupas de estilistas famosos, técnicas de cinema, efeitos especiais, maquiagem diferente. Ela, uma Maria Madalena meio indecisa, insinua um triângulo amoroso entre ela, Jesus e Judas. E cá pra nós, meio culpada, pois é Judas que lights her fire! Não conheço o trabalho pra falar realmente dele. Sei que Lady Gaga é um fenômeno, sei que ela procura ser diferente e desafiadora e acho que já vi isso antes. Uma loura cantando em inglês, em meio a um monte de bailarinos bonitos e figurinos incríveis. E mais de trinta milhões de acessos!

Eu nem tinha a menor intenção de falar desse clipe, que é bacana dentro da linguagem dele, mas não mudou minha vida em nada. Porém, sexta passada, recebi um adorável email de minha sobrinha mais velha, Luiza (19 anos), que dizia: ”pras minhas tias bregas!”. E ali estava um video de uma banda nova, que ela mesma está adorando e que virou uma febre na rede brasileira, chamada A Banda mais bonita da cidade. De cara, achei o nome ótimo e fui correndo dar uma olhada.

Nada de motos ou efeitos especiais. Alguém pediu a casa da vó emprestada, chamou a banda, mais um punhado de amigos entusiasmados e saiu cantando literalmente pela casa. Em cada cômodo uma situação diferente de instrumentos e novos rostos e vozes que se agregam à melodia inicial, cujo nome é Oração. Uma música curta, de amor, daquelas que sempre tem alguém que puxa novamente, quase no fim e começa tudo de novo. Vozes de não-cantores e até nisso pode ser interessante, porque tudo parece bem espontâneo e natural. Clima amador, de quem ama estar ali, a ponto de dar vontade de estar assim com eles, num daqueles cômodos, que devem ter cheiro de lavanda e café fresco.

Se fosse nos anos 70, talvez passasse mais batido, mas nos anos 2000 toca numa melancolia, numa nostalgia boa de sentir. É tudo tão hippie, naïfe, desconcertantemente corriqueiro, porém, cheio de poesia e uma alegria despudorada. Ninguém parece estar tentando parecer in, nem preocupado de estar out. Musicalmente, o pouco que ouvi, soa delicado e simplório.

O clipe lembra o clima da banda Beirut e uma outra que adoro, chamada Bon Iver. Vale dizer que essas duas soam mais consistentes e maduras. “Oração” termina com a turma toda fazendo um carnaval num só cômodo, entre confetes, cachorro no colo do batera, uma margarida, piano de brinquedo e um caminhão de sorrisos. Minha sobrinha tinha razão, me emocionei sim.

Judas! termina bem mais dramático e “grandioso”, com uma onda cobrindo Lady Gaga , um ritual numa banheira, ela caída no chão, como uma cleópatra vestida de noiva e ainda um close final, onde ela parece estar chorando. Cada cena com uma producão completamente diferente…ufa!

São climas tão antagônicos, que um me fez lembrar do outro. De como em tempos de alta tecnologia, a volta ao começo se faz presente e nos toca num lugar diferente, num lugar que nos é caro e profundo. Não falo de um em detrimento do outro não, mas gosto de ambos existirem. Afinal, sou xará da minha avó e fiz muito som na casa dela.

Mas vou juntar aqui as letras, para que elas se ajudem de alguma forma, nesse mundo de sincretismos e diversidades.
Oh oh oh oh
I’m in love with Judas

Meu amor, essa é a última oração
Pra salvar seu coração

Judas – Lady Gaga

Oração – A Banda mais bonita da cidade

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Ladies e Rádios Gaga

No excelente blog Saindo da Matrix achei esta análise do filme Metropolis, de Fritz Lang, seguida deste outro post, que é o que me interessa aqui. E não tanto pelo filme, mas pelo que fizeram com ele:

Radio Gaga – Queen

A análise do Saindo da Matrix é bastante radical, embora tenha argumentos ótimos. E um trecho me chamou a atenção, com uma informação que parece ser conhecida dos fãs do Queen, mas que só soube agora. Uma informação… sobre Lady Gaga.

O nome que ela escolheu já é uma homenagem indireta a Metropolis, pois foi tirado do clipe Radio Gaga, do Queen, que possui cenas do filme e, após um final trágico onde uma família morre, um dúbio “thanks to Metropolis” (sem falar que Freddie Mercury aparece com o rosto no robô). O título original da música era “Radio Caca”, no sentido de “cocô” mesmo, pois a música era uma condenação às rádios que só tocavam porcaria, mas Freddie reescreveu a letra pra algo mais comercializável. Portanto Lady Gaga significa, em seu sentido mais obscuro, Senhorita cocô.

Do nome da Lady Gaga eu sabia, não sabia era da história do Queen. E por aí ele vai, fazendo comparações terríveis entre ela e uma personagem do filme que é uma robô criada para enganar. E ainda, sobre a palavra caca:

Do latim cacare, tanto que o refrão era “Radio caca, radio poo-poo”, que são nomes infantis para cocô e que foi inspirado pelo filho de 3 anos de Roger Taylor, escritor da música e baterista do Queen.

Minha intenção aqui não é de forma alguma “provar” que Lady Gaga é ruim. Trato aqui no blog do que me interessa, e o que não me interessa deixo de lado. O que me deixou encafifado de cara foi como é que a Lady em questão toma para seu nome artístico a referência a uma canção que fala mal do que ela faz.

Acontece que esta contradição vem da própria canção. Senão vejamos: Radio Gaga é um ode ao rádio, mas não a qualquer rádio. Ela rememora sua história, inclusive o famoso episódio em que Orson Wells  fez os EUA inteiros acreditarem que havia uma invasão alienígena acontecendo, tal foi o realismo com que adaptou Guerra dos Mundos, de H.G. Wells para o formato de novela.

E na segunda parte, então, Freddie Mercury canta aproximadamente isto:

Nós vemos os shows, nós vemos as estrelas
Em vídeos por horas e horas
Nós dificilmente precisamos usar os ouvidos
– Como a música muda através dos anos! –
Vamos esperar que você nunca deixe um velho amigo
Como todas as coisas boas, dependemos de você
Então apareça, pois poderemos sentir sua falta
Quando crescermos e cansarmos de todo esse visual

Como é estranho ouvir isso asistindo a um videoclip que se tornou referência! Em um determinado momento do clip, uma família pega um livro de fotos antigas chamado Favorite Years (em relação direta com o saudosismo da primeira estrofe) para ver fotos – que são trechos de clips antigos do próprio Queen. Então, quando a parte final da estrofe acima é cantada, as imagens dos clips retornam espocando rapidamente em recapitulação, associando-se à letra, como que para depreciar as próprias imagens que foram apresentadas logo antes como os melhores anos! Como para avisar os ouvintes sobre uma embalagem bonita e sem conteúdo. Mas, mais estranhamente, apontando como sem  valor os próprios clips da banda, inclusive, por extensão, aquele em que estas imagens são vistas.

E então vem o refrão. O ritmo da canção é bem marcado – típico de uma composição feita por um baterista -, mas no refrão esta característica recrudesce, e não é à toa. Depois que Freddie apresenta o tema, um coro passa a cantar o refrão, e no clip uma multidão canta marcando com palmas numa coreografia e numa estilização visual que chegou a provocar comparações com o nazismo. O que mostra muito da capacidade do filme, que é de 1927, de antecipar acontecimentos através de sua estética, já que a parte visual do clip é inspirada nele.

Este refrão repetido por uma multidão de iguais sem características já é por si algo assustador na imagem. E como se não bastasse, o que cantam é vazio: tudo que ouvimos é rádio gaga, rádio gu-gu, rádio blá-blá. Outra vez temos uma contradição, pois em 1984, quando lançou o álbum The Works, o Queen se afastava rapidamente do rock progressivo que o caracterizara na década de 70, aproximando seu trabalho do pop.

Seria muito simples apenas acusar o Queen de praticar um discurso populista ao fazer música comercial. Mas o discurso artístico não é tão simples. E mais uma vez a pista vem do clip, para explicar a canção. Uma das interpretações possíveis para  aquilo que alguns associaram ao nazismo é a idéia de ser, na verdade, um pastiche da estética nazista, talvez referindo-se ao totalitarismo da comunicação de massa.

E porque não extrapolar a noção de pastiche? Estamos acostumados a pensá-lo como algo de segunda ordem, mas ele pode ter também um conteúdo crítico, seja ou não humorístico, como o que Charles Chaplin faz com Hitler em O grande ditador. A bateria marcial de Radio Gaga é, em si, o pastiche de uma uniformização e de uma rigidez estética que já tomava conta das rádios então, e hoje é preponderante. É como se a canção do Queen estivesse disfarçada de canção superficial , e em seu disfarce apresentasse as características deste tipo de canção exageradamente (para a época). E, enquanto a letra fala do assunto abertamente (mais ou menos, já que teve de ser modificada), o arranjo trata do mesmo assunto sub-repticiamente.

Delirante? Pode ser. Não sou adepto de teorias de conspiração, mas acredito que a obra de arte pode ter muitas camadas de interpretação. Esta é uma possibilidade que me agrada. Há sem dúvida outras possibilidades, como outras camadas. Mas agora a escolha de Lady Gaga para criar seu nome artístico também se reveste de novas camadas de significação. Que podem ser positivas, caso ela tenha noção destas camadas e saiba lidar com elas, ou negativas, caso mantenha- se num nível superficial, ou quem sabe ambas. Neste caso, abstenho-me de comentar.

Duas blagues

Com a licença de Graciane Cunha, protagonista desta historieta via Facebook. Um belo dia ela escreve:

– Eu aguento qualquer coisa, menos minha mãe ouvindo Lady Gaga.

Depois de alguns comentários, ela volta:

– E o que falar do meu pai. Enquanto eu discutia com mamãe sobre Lady Gaga, ele sai com essa: “Podem falar o que quiser dela, mas ela deu muita força para a carreira do filho.” “Pai, não é Lady Laura, é Lady Gaga.”

Tempos depois, ela volta:

– Ouvindo Pais e Filhos. É grave?

Aí eu não resisti.

– O Renato Russo está tentando te explicar porque sua mãe estava ouvindo Lady Gaga outro dia.

– Sábias palavras – ela fechou.

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Desde que coloquei aqui o artigo Funk, Freud, feitiço, as Foguentas e as fogueiras da Santa Inquisição, chegam por dia um ou dois visitantes trazidos pelo Google, querendo assistir Suzi Feiticeira ou Tati Quebra-Barraco. Acho que vou fechar este blog e fazer um só sobre funk…