Umas noites em 72

A história do disco é conhecida. Depois de Milton Nascimento enfrentar a gravadora para gravar seu próximo álbum lado a lado com um rapaz de 19 anos, o álbum Clube da Esquina se tornou uma referência da música brasileira, e o rapaz subitamente passou a ter uma carreira promissora. Foi instado então a gravar imediatamente seu próprio álbum, e o fez with the little help of his friends, os mesmos que haviam estado com ele no Clube: Beto Guedes, Toninho Horta, entre outros, revezando-se nos instrumentos. O álbum foi gravado em toque de caixa: de manhã, Lô Borges compunha uma canção, à tarde a letra era posta, em geral por seu irmão Márcio, e à noite os amigos se reuniam e a gravavam praticamente de primeira. Assim foi feito um álbum de rock progressivo, vocais dos Beatles, toada mineira, baião, experimentalista e brasileiro que se tornou objeto de culto, um clássico obscuro. Terminado o trabalho, Lô faz o que as próprias canções e capa do disco prenunciavam: põe o pé na estrada, sem turneé nem lançamento, e só retoma sua carreira anos depois.

Falta a história do show. Em 2016, Lô Borges encontra em Minas o músico Pablo Castro, faz uma participação em um show seu e assiste Pablo, que tem um conhecimento enciclopédico da MPB em geral e do Clube da Esquina em particular, tocar as canções do Disco do Tênis e outras com uma fidelidade espantosa. E daí surge a ideia de refazer o álbum ao vivo. Lô entrega a direção musical a Pablo, que arregimenta os músicos e põe em pé os arranjos originais fielmente. E eles põem o pé na estrada.

Há um risco inerente a um projeto como este, aliás dois, ligados entre si. De um lado, a possibilidade de ser visto como um mero caça-níqueis, como os revivals de bandas de rock, algumas delas revisitando seus álbuns clássicos com formações que não são a sombra das que os gravaram, como covers de si mesmos; e além disso, a questão técnica ligada neste caso à feitura do álbum: o Disco do Tênis traz em si o processo de sua feitura improvisada, urgente, intuitiva (às vezes bêbada). Algumas das canções do álbum são muito curtas apenas pela falta de tempo para fazê-las maiores – e tornam-se apenas vinhetas, ou na gravação intermezzos instrumentais criados no estúdio emendam-se a elas dando-lhes a consistência necessária. Se os mesmos amigos tivessem que gravar três vezes o mesmo repertório, certamente teriam saído três Discos do Tênis totalmente diferentes. Faz sentido levar ao palco a reprodução meticulosa de algo criado tão livremente?

A resposta, como não poderia deixar de ser, é dada no palco, e se resolve em dois âmbitos: no repertório propriamente dito e na performance da banda. No repertório, porque ele ressurge de 45 anos atrás surpreendentemente novo e fresco. O Disco do Tênis envelheceu muito bem – ou, como os sonhos da letra de Clube da Esquina nº2, não envelheceu. Suas fusões ainda hoje soam orgânicas e as letras continuam desafiadoras, nada óbvias mesmo quando algo ingênuas, e embora conectadas com a realidade da época, voltam a se fazer ouvir nos escuros tempos atuais.

Por que ando triste eu sei
É que eu vivo na rua
Espero algo mais deste frio
Espero um pouco mais e aprendi
A ser como o machado,
Que despreza o perfume do sândalo

A verdade é negra, eu sei
E o homem é mau
Espero algo mais desse ódio
Espero um pouco mais e aprendi
A ser como o meu gato,
Que descansa com os olhos abertos

E a outra garantia do trabalho está na própria banda, ou melhor dizendo, no entusiasmo com que se entrega à reconstrução meticulosa das noites de 1972, bem mais que um trabalho estritamente musical. A turma do Pablo Castro, mais que reproduzir nota por nota os arranjos originais, se insere neles – e Lô reconhece isto em diversos momentos do show, inclusive na apresentação dos músicos ao final, em que diz que Paulim Sartori, por exemplo, foi Toninho Horta e Beto Guedes no baixo. Ou quando ele destaca que até a nota errada de um solo seu no álbum é reproduzida por Guilherme de Marco. Ou finalmente, quando, rindo, apelida a banda de Os Xiitas. A atmosfera é menos a de um show individual de Lô do que de uma cooperação entre iguais – não comparável à formação original das gravações, mas fazendo-a presente em espírito. Se há saudosismo na platéia que vai ao show, no palco não há.

E sim, depois do repertório que dá nome ao show, vindo de um disco de apenas meia hora, há o restante do repertório de Lô lançado em 1972 – ou seja, sua metade do álbum Clube da Esquina, e mais Para Lennon e McCartney, gravada em 1970 por Milton, de brinde, e todas com os arranjos originais, que em sua maioria são tocadas no álbum pelos mesmos que gravaram com Lô logo depois. É a parte solar do show, em que o público canta junto um repertório que acompanhou Lô por sua carreira, ao contrário do outro, deixado de lado por todos estes anos. Sua presença é indispensável por ser a outra parte daquele rapaz de 20 anos, a que ficou na memória do seu público. Mas a noite afinal não é dela, e sim da outra parte, a que ficou muda por toda uma carreira, mas de certa forma a alimentou subterraneamente por todos estes anos. E o trabalho de arqueólogo de Pablo afinal não resultou na exumação de um cadáver e muito menos em reviver um repertório, porque afinal as canções do Disco do Tênis sempre estiveram bem vivas.

Como brinde, duas matérias excelentes sobre o Disco e o Show do Tênis, aqui e aqui.

 

 

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