Dê um rolê, Roberta Sá!

Tenho notado uma coisa em comum a uma quantidade de cantoras cujo trabalho ganhou visibilidade de alguns anos para cá: uma certa forma de interpretar que privilegia o timbre suave, tecnicamente perfeito, elegante. Boa parte dessas cantoras tem sido “acusada” por alguns de copiar Marisa Monte, ou voltando mais no tempo, Gal Costa. Seria uma escola de canto que privilegia a emissão em detrimento da interpretação.

Grande bobagem, e por dois motivos. Primeiro, porque técnica e interpretação não são antônimos nem excludentes, é claro. E segundo porque as cantoras que pretensamente serviram de modelo às mais novas sempre souberam a hora de, se achassem necessário, deixarem de lado a emissão vocal “perfeita” para darem uns bons gritos, ou pelo menos escancararem a garganta e num timbre mais rascante ou com mais pegada.

Ainda assim, não tiro inteiramente a razão de quem reclama. Tenho às vezes a impressão, ao ouvir cantoras como Roberta Sá – vou ficar no exemplo dela para não fazer ainda mais generalizações – que ao cantar celebra-se o próprio ato de cantar e não necessariamente o que diz a canção. Percebo que a melodia, a interação com o instrumental, recebem enorme atenção, e a voz macia permanece a mesma ao cantar coisas alegras e tristes, felizes e furiosas. Quer dizer, não lembro de coisas furiosas no repertório dela…

Isto não significa que ela não saiba mudar a voz em prol de uma interpretação quando acha que deve. Um exemplo:

Fogo e Gasolina – Roberta Sá e Lenine

Em Fogo e Gasolina, Roberta parece que vai cantar do mesmo modo de costume. Só que, lá pelo meio da letra, mais precisamente no verso Eu sou a veia e você é a agulha, ela muda completamente o registro. Da primeira vez que ouvi a canção, achei que era uma outra participação além da do Lenine. Não consegui perceber o motivo de esta mudança ter acontecido no meio da música, em vez de ter ocorrido nela toda. Não há nenhuma indicação na letra e nem mudança no arranjo que justifiquem isto. Porém, isto não deixa dúvida da capacidade de a Roberta usar a voz em favor da canção. Só acho – e aí dou talvez uma de crítico – que ela pode fazer isto mais e melhor, se permitir mais sair da regra da aula de canto e explorar mais as possibilidades da voz. Cantar menos, contar mais, porque no fim das contas toda canção é uma história a ser contada. Isso talvez venha com o tempo. Tomara. Neste caso, ela estará na verdade seguindo o caminho inverso ao de Gal Costa, que hoje dificilmente desce do salto, mas que um dia já se esgoelou maravilhosamente. Fica o conselho do título, Roberta.

Dê um Rolê – Gal Costa, acompanhada pelos Novos Baianos – do álbum Fatal, de 1971.

A propósito: pesquisando para este texto achei o ótimo blog Geração Supernova, dedicado exclusivamente a esta geração 2000 da música brasileira. E deixo o registro.