Música para ver

– Ando preocupada com a Luna. Ela não ouve música!

– Como assim? Ela ouve música o dia inteiro!

– Não ouve, não. Ela assiste desenhos que tem música, assiste videoclips, entra no YouTube, mas música mesmo não ouve quase nunca!

Tive este diálogo com minha mulher outro dia. A partir dele, pensando no assunto, fiquei com a impressão de que, na verdade, a separação entre a audição da música e a visão é coisa inventada recentemente, que durou pouco e já está acabando.

Até a virada do século XX, música significava música ao vivo. Não havia nenhuma técnica de gravação, e partitura, além de ser para poucos iniciados, não é a música nem ilustração para ela. Portanto, assistir música era estar presente – e no caso da musica popular, em boa parte dos casos significava também participar de algum modo. Já na música clássica, foi criada uma variação: o fosso da orquestra. Tornando os músicos invisíveis, produziu-se o primeiro divórcio entre a imagem e o som, ainda que a voz cantora permanecesse em cena. Mas no caso de um balé, a separação tornou-se absoluta. Era revolucionário, mas ainda assim a imagem acompanhava o som, de maneira indispensável.

Revolucionário mesmo foi quando as primeiras gravações comerciais apareceram, com seu som roufenho, distorcido, mas ainda assim um milagre. A semelhança com a realidade era quase nenhuma, e nos estúdios era necessário criar toda uma ambiência para possibilitar algum tipo de registro. Mas o divórcio agora se anunciava definitivo. Ou quase.

Isto é Bom, de Xisto Bahia, primeira música gravada no Brasil.

As tecnicas de gravação continuaram a se desenvolver. Surgiu a alta fidelidade, depois a tecnologia digital, até se chegar ao ponto de uma gravação ao vivo soar tão boa quanto uma de estúdio. Mas paralelamente a este caminho, outro foi trilhado em sentido contrário, e se chamou videoclip. Dizem que os Beatles começaram tudo (E o que os Beatles não fizeram primeiro?)

Lucy in the Sky with Diamonds – trecho do filme Yellow Submarine.

I am the Walrus – trecho do fime Magical Mistery Tour.

O resto se sabe. MTV, Michael Jackson… Caetano Veloso, em 1989, publicou um artigo na Folha de São Paulo com o ambíguo título Vendo Canções. Nele, tratava do videoclip como arte (quase) independente da canção, ao mesmo tempo que como peça de publicidade dela. Comentava, por exemplo, que gostava do clip de Radio Gaga do grupo Queen, com referências e trechos do filme Metrópolis, do diretor impressionista alemão Fritz Lang, mas a música em si não o interessava tanto. Era a imagem retomando seu lugar junto ao som, mas agora podendo tomar todas as liberdades possíveis.

Thriller

Radio Gaga

Hoje que a MTV não toca mais quase música, em compensação a Internet abriu as portas da percepção a quem vem chegando agora. Minha filha de cinco anos se vira no computador com grande desenvoltura e emenda um clip atrás do outro. Sim, sendo minha filha, ela ouve música sem imagem também. Mas não posso deixar de pensar que talvez esta seja a última geração a fazer esta diferenciação tão claramente. Será?

Não. Embora a venda de DVDs com shows hoje seja quase superior à de CDs, o formato mp3 associado aos leitores portáteis quase onipresentes permite um fenômeno inverso da visualização da música, que é a sua individualização absoluta e sua escuta em qualquer lugar. Assim, a relação escuta/visão musical vai cumprindo suas indas e vindas simultâneas: da música gravada substituindo a ao vivo, do videoclip na contramão trazendo a imagem de volta, do mp3 na contramão do videoclip privilegiando a pura escuta individual. E me arrisco na futurologia, ao dizer o próximo passo: a tecnologia permitir a participação na música paralelamente e na contramão da individuação do mp3, como antes das gravações, mas diferente, como sempre. A conferir daqui a alguns anos. Ou daqui a pouco. Provavelmente a Luna me manterá informado.