E agora no Zuim, o playlist do Sobre a Canção!

Desde que comecei este blog, me dei conta aos poucos da existência de inúmeras outras outras iniciativas que, como a minha, mas de diversas outras formas, têm a música como seu centro. E, conforme ia conhecendo cada uma delas, ia também percebendo e procurando me integrar em uma rede de blogs e sítios que tem por objetivo divulgar, analisar, e principalmente dar acesso à música de forma gratuita a todos, democraticamente, quase todos levados abnegadamente por gente que bota seu tempo, seu suor e mesmo seu dinheiro em prol da possibilidade de, através da Internet, qualquer um ter direito de ouvir qualquer música, independente de um álbum estar fora de catálogo há anos, ou e de conhecer o que se faz de novo e excelente, mesmo que boicotado pelos meios de comunicação. São pessoas, muitas obrigadas por um obscurantismo que tenta se estender pela Net, a se esconderem com pseudônimos, como o fulano sicrano do Um que tenha, a Bruxa do Vinil do Abracadabra, Leonardo Davino do Lendo Canção, o pessoal do Radinha, o do Eu Ovo, todos não por acaso com ligações aí ao lado, e muitos com ligações também para cá, e last but not least – e aí é que eu queria chegar – Haydée Belda, do Zuim.

O Zuim se intitula um espaço para a apresentação de música brasileira, e é exatamente isso: um lugar plural, onde a cada quarta feira um programa novo é colocado, em que, às vezes por tema, às vezes por autor, às vezes por estilo, ouve-se um bocado da qualidade imensa que a música brasileira chegou ao longo de mais de um século de existência, sem preconceito e com a maior puralidade de época, gênero, autor. E que, dentro desta pluralidade e generosamente, abre também espaço para que sejam sugeridos programas. O que, assim que eu vi, fiquei me coçando para fazer. Demorei um bocado para enviar minha sugestão de pauta, por pura timidez. Mas acabei, usando como pretexto os dois anos de blog, completados em maio, mandando uma lista de canções de que tratei aqui ao longo deste tempo.

E fiquei felicíssimo quando a Haydée respondeu, passamos a trocar figurinhas na montagem do programa, conseguindo os arquivos que ela não tinha. Mandei também sugestões de curtos textos introdutórios, que ela decidiu utilizar. E finalmente, após uma espera pequena mas ansiosa de minha parte, voilá! A playlist do Sobre a Canção está no ar!

De modo que venho por meio destas mal traçadas linhas, primeiro agradecer muitíssimo à Haydèe, não só por ter aceitado esta colaboração, mas principalmente pela existência do Zuim, que já me surpreendeu inúmeras vezes com coisas antigas que eu não conhecia, relações entre canções que eu não imaginara, e agora me deu a oportunidade de fazer isso também. E segundo, indicar novamente o sítio a todos, e recomendar especialmente que vão lá esta semana ouvir a seleção do Sobre a Canção. Se já foi um prazer por si só fazer a escolha das canções, maior prazer ainda é reforçar desde modo, modestamente, a rede de gente que trabalha na Internet para que a música seja de todos – que é pra isso que estamos aqui.

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Canções de Lista e suas listas

O podcast zuim estreou em janeiro deste ano com programas conceituais. Um dos primeiros esmiuçou a música Pra Ninguém (letra aqui, programa com a música aqui), de Caetano Veloso, que consiste em uma lista de títulos de outras canções. O sítio então fez o programa tocando as músicas citadas na letra. Deu tão certo que, mais recentemente, voltaram a usar esta tática com Todas Elas Juntas Num Só Ser, de Lenine e Carlos Rennó. Desta vez a letra quilométrica não coube em um programa só, precisaram de cinco! Daí que fiquei cismando com esse negócio de canção de lista, quando é que funciona e quando fica chato.

E quando é que funciona, quando é que fica chato? Confesso que já tive uma certa implicância com canções de lista, por ter a impressão de que cabia qualquer coisa, que não chegavam a lugar nenhum. Isso até me dar conta de que gostava de algumas sem me dar conta de que se encaixavam nessa categoria. Primeiro então pensei que funciona quando o sujeito sabe onde quer chegar, quando ele tem uma finalidade em mente que direciona a lista. É o caso de Passaredo, de Francis Hime e Chico Buarque, por exemplo. Mas aí lembrei de Diariamente, de Nando Reis, que parece não ter fim e não chegar a lugar nenhum, e mesmo assim se torce para continuar, pela curiosidade do jogo de associações.

Então achei que vale a surpresa da enumeração, indo até o limite do absurdo, como Dos Margaritas, dos Paralamas, ou Por Você, do Barão Vermelho. A surpresa não vem apenas do próximo ítem a ser reconhecido ou não, no caso de uma citação, mas também o estratagema e o contexto para ele ser encaixado na música, à maneira dos sambas-enredos, como em Cinema Novo, de Caetano e Gil, que ambiciona contar toda a história do cinema nacional em quatro minutos! A canção pode saber ou não onde quer chegar, mas tem que curtir o trajeto. Um componente bem humorado sempre ajuda, como em Por que que eu não pensei nisso antes?, de Itamar Assumpção  e Façamos (Vamos Amar), de Cole Porter em versão de Carlos Rennó (parece que este gosta de fazer canções de lista mesmo)   E uma lista pode ser também de sonoridades, mais até que de significados, como em Dançapé, de Mário Gil é Rodolfo Stroeter.

Finalmente, há algo que pode tranformar a mera lista em algo maior: é quando o compositor sabe usar a propriedade de acumulação de tensão inerente à repetição de uma fórmula, juntando-a a um acompanhamento crescente, a uma intensificação instrumental ou de interpretação, e assim empolgar, emocionar. Milton Nascimento faz isto  magistralmente em A de Ó (Estamos Chegando), em parceria com Pedro Tierra e Dom Pedro Casaldáliga. Francis e Chico (de novo) também o fazem em E Se…

E nesta brincadeira, acabei fazendo, a meu modo, um podcast também, uma lista de canções de lista. Então, à maneira do zuim, que aceita listas enviadas pelos ouvintes para fazer os próximos programas, aceito também sugestões de canções de lista interessantes. Com link para ouvir então, melhor ainda.

PS. No link de Dançapé, o sítio dá várias versões da música para escolher. Recomendo a penúltima da lista, de Mônica Salmaso.