Ladies e Rádios Gaga

No excelente blog Saindo da Matrix achei esta análise do filme Metropolis, de Fritz Lang, seguida deste outro post, que é o que me interessa aqui. E não tanto pelo filme, mas pelo que fizeram com ele:

Radio Gaga – Queen

A análise do Saindo da Matrix é bastante radical, embora tenha argumentos ótimos. E um trecho me chamou a atenção, com uma informação que parece ser conhecida dos fãs do Queen, mas que só soube agora. Uma informação… sobre Lady Gaga.

O nome que ela escolheu já é uma homenagem indireta a Metropolis, pois foi tirado do clipe Radio Gaga, do Queen, que possui cenas do filme e, após um final trágico onde uma família morre, um dúbio “thanks to Metropolis” (sem falar que Freddie Mercury aparece com o rosto no robô). O título original da música era “Radio Caca”, no sentido de “cocô” mesmo, pois a música era uma condenação às rádios que só tocavam porcaria, mas Freddie reescreveu a letra pra algo mais comercializável. Portanto Lady Gaga significa, em seu sentido mais obscuro, Senhorita cocô.

Do nome da Lady Gaga eu sabia, não sabia era da história do Queen. E por aí ele vai, fazendo comparações terríveis entre ela e uma personagem do filme que é uma robô criada para enganar. E ainda, sobre a palavra caca:

Do latim cacare, tanto que o refrão era “Radio caca, radio poo-poo”, que são nomes infantis para cocô e que foi inspirado pelo filho de 3 anos de Roger Taylor, escritor da música e baterista do Queen.

Minha intenção aqui não é de forma alguma “provar” que Lady Gaga é ruim. Trato aqui no blog do que me interessa, e o que não me interessa deixo de lado. O que me deixou encafifado de cara foi como é que a Lady em questão toma para seu nome artístico a referência a uma canção que fala mal do que ela faz.

Acontece que esta contradição vem da própria canção. Senão vejamos: Radio Gaga é um ode ao rádio, mas não a qualquer rádio. Ela rememora sua história, inclusive o famoso episódio em que Orson Wells  fez os EUA inteiros acreditarem que havia uma invasão alienígena acontecendo, tal foi o realismo com que adaptou Guerra dos Mundos, de H.G. Wells para o formato de novela.

E na segunda parte, então, Freddie Mercury canta aproximadamente isto:

Nós vemos os shows, nós vemos as estrelas
Em vídeos por horas e horas
Nós dificilmente precisamos usar os ouvidos
– Como a música muda através dos anos! –
Vamos esperar que você nunca deixe um velho amigo
Como todas as coisas boas, dependemos de você
Então apareça, pois poderemos sentir sua falta
Quando crescermos e cansarmos de todo esse visual

Como é estranho ouvir isso asistindo a um videoclip que se tornou referência! Em um determinado momento do clip, uma família pega um livro de fotos antigas chamado Favorite Years (em relação direta com o saudosismo da primeira estrofe) para ver fotos – que são trechos de clips antigos do próprio Queen. Então, quando a parte final da estrofe acima é cantada, as imagens dos clips retornam espocando rapidamente em recapitulação, associando-se à letra, como que para depreciar as próprias imagens que foram apresentadas logo antes como os melhores anos! Como para avisar os ouvintes sobre uma embalagem bonita e sem conteúdo. Mas, mais estranhamente, apontando como sem  valor os próprios clips da banda, inclusive, por extensão, aquele em que estas imagens são vistas.

E então vem o refrão. O ritmo da canção é bem marcado – típico de uma composição feita por um baterista -, mas no refrão esta característica recrudesce, e não é à toa. Depois que Freddie apresenta o tema, um coro passa a cantar o refrão, e no clip uma multidão canta marcando com palmas numa coreografia e numa estilização visual que chegou a provocar comparações com o nazismo. O que mostra muito da capacidade do filme, que é de 1927, de antecipar acontecimentos através de sua estética, já que a parte visual do clip é inspirada nele.

Este refrão repetido por uma multidão de iguais sem características já é por si algo assustador na imagem. E como se não bastasse, o que cantam é vazio: tudo que ouvimos é rádio gaga, rádio gu-gu, rádio blá-blá. Outra vez temos uma contradição, pois em 1984, quando lançou o álbum The Works, o Queen se afastava rapidamente do rock progressivo que o caracterizara na década de 70, aproximando seu trabalho do pop.

Seria muito simples apenas acusar o Queen de praticar um discurso populista ao fazer música comercial. Mas o discurso artístico não é tão simples. E mais uma vez a pista vem do clip, para explicar a canção. Uma das interpretações possíveis para  aquilo que alguns associaram ao nazismo é a idéia de ser, na verdade, um pastiche da estética nazista, talvez referindo-se ao totalitarismo da comunicação de massa.

E porque não extrapolar a noção de pastiche? Estamos acostumados a pensá-lo como algo de segunda ordem, mas ele pode ter também um conteúdo crítico, seja ou não humorístico, como o que Charles Chaplin faz com Hitler em O grande ditador. A bateria marcial de Radio Gaga é, em si, o pastiche de uma uniformização e de uma rigidez estética que já tomava conta das rádios então, e hoje é preponderante. É como se a canção do Queen estivesse disfarçada de canção superficial , e em seu disfarce apresentasse as características deste tipo de canção exageradamente (para a época). E, enquanto a letra fala do assunto abertamente (mais ou menos, já que teve de ser modificada), o arranjo trata do mesmo assunto sub-repticiamente.

Delirante? Pode ser. Não sou adepto de teorias de conspiração, mas acredito que a obra de arte pode ter muitas camadas de interpretação. Esta é uma possibilidade que me agrada. Há sem dúvida outras possibilidades, como outras camadas. Mas agora a escolha de Lady Gaga para criar seu nome artístico também se reveste de novas camadas de significação. Que podem ser positivas, caso ela tenha noção destas camadas e saiba lidar com elas, ou negativas, caso mantenha- se num nível superficial, ou quem sabe ambas. Neste caso, abstenho-me de comentar.

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Música para ver

– Ando preocupada com a Luna. Ela não ouve música!

– Como assim? Ela ouve música o dia inteiro!

– Não ouve, não. Ela assiste desenhos que tem música, assiste videoclips, entra no YouTube, mas música mesmo não ouve quase nunca!

Tive este diálogo com minha mulher outro dia. A partir dele, pensando no assunto, fiquei com a impressão de que, na verdade, a separação entre a audição da música e a visão é coisa inventada recentemente, que durou pouco e já está acabando.

Até a virada do século XX, música significava música ao vivo. Não havia nenhuma técnica de gravação, e partitura, além de ser para poucos iniciados, não é a música nem ilustração para ela. Portanto, assistir música era estar presente – e no caso da musica popular, em boa parte dos casos significava também participar de algum modo. Já na música clássica, foi criada uma variação: o fosso da orquestra. Tornando os músicos invisíveis, produziu-se o primeiro divórcio entre a imagem e o som, ainda que a voz cantora permanecesse em cena. Mas no caso de um balé, a separação tornou-se absoluta. Era revolucionário, mas ainda assim a imagem acompanhava o som, de maneira indispensável.

Revolucionário mesmo foi quando as primeiras gravações comerciais apareceram, com seu som roufenho, distorcido, mas ainda assim um milagre. A semelhança com a realidade era quase nenhuma, e nos estúdios era necessário criar toda uma ambiência para possibilitar algum tipo de registro. Mas o divórcio agora se anunciava definitivo. Ou quase.

Isto é Bom, de Xisto Bahia, primeira música gravada no Brasil.

As tecnicas de gravação continuaram a se desenvolver. Surgiu a alta fidelidade, depois a tecnologia digital, até se chegar ao ponto de uma gravação ao vivo soar tão boa quanto uma de estúdio. Mas paralelamente a este caminho, outro foi trilhado em sentido contrário, e se chamou videoclip. Dizem que os Beatles começaram tudo (E o que os Beatles não fizeram primeiro?)

Lucy in the Sky with Diamonds – trecho do filme Yellow Submarine.

I am the Walrus – trecho do fime Magical Mistery Tour.

O resto se sabe. MTV, Michael Jackson… Caetano Veloso, em 1989, publicou um artigo na Folha de São Paulo com o ambíguo título Vendo Canções. Nele, tratava do videoclip como arte (quase) independente da canção, ao mesmo tempo que como peça de publicidade dela. Comentava, por exemplo, que gostava do clip de Radio Gaga do grupo Queen, com referências e trechos do filme Metrópolis, do diretor impressionista alemão Fritz Lang, mas a música em si não o interessava tanto. Era a imagem retomando seu lugar junto ao som, mas agora podendo tomar todas as liberdades possíveis.

Thriller

Radio Gaga

Hoje que a MTV não toca mais quase música, em compensação a Internet abriu as portas da percepção a quem vem chegando agora. Minha filha de cinco anos se vira no computador com grande desenvoltura e emenda um clip atrás do outro. Sim, sendo minha filha, ela ouve música sem imagem também. Mas não posso deixar de pensar que talvez esta seja a última geração a fazer esta diferenciação tão claramente. Será?

Não. Embora a venda de DVDs com shows hoje seja quase superior à de CDs, o formato mp3 associado aos leitores portáteis quase onipresentes permite um fenômeno inverso da visualização da música, que é a sua individualização absoluta e sua escuta em qualquer lugar. Assim, a relação escuta/visão musical vai cumprindo suas indas e vindas simultâneas: da música gravada substituindo a ao vivo, do videoclip na contramão trazendo a imagem de volta, do mp3 na contramão do videoclip privilegiando a pura escuta individual. E me arrisco na futurologia, ao dizer o próximo passo: a tecnologia permitir a participação na música paralelamente e na contramão da individuação do mp3, como antes das gravações, mas diferente, como sempre. A conferir daqui a alguns anos. Ou daqui a pouco. Provavelmente a Luna me manterá informado.