Crítica social na música: o buraco é mais embaixo

Em 1937, a marchinha vencedora do Carnaval, do cartunista Antônio Nássara e Cristovão de Alencar, dizia, parodiando a cantiga Terezinha de Jesus:

A menina presidência vai rifar seu coração
E já tem três pretendentes, todos três chapéus nas mãos (E quem será?)

Ela mesma respondia:

O homem quem será?  Será Seu Manduca ou será Seu Vavá?
Entre esses dois meu coração balança porque na hora “h” quem vai ficar é Seu Gegê…

Seu Manduca era Armando Sales de Oliveira, candidato da oposição a Vargas, o  Seu Gegê; e Seu Vavá era Oswaldo Aranha (o do filé), candidato governista. A marchinha acertou na mosca: no ano seguinte, antes da data das eleições, Getúlio decretou a ditadura do Estado Novo, e se perpetuou no poder até 1945.

O Brasil já teve a tradição de fazer música que se metia diretamente nas questões políticas, fosse bem-humoradamente, como no caso desta e de muitas outras músicas de carnaval, fosse sub-repticiamente, como na produção durante a ditadura militar. Esta produção em alguns momentos tinha um objetivo político maior que o artístico, e não sobreviveu, como as canções ufanistas tipo Eu te amo, meu Brasil ou as que se preocupavam mais em mandar mensagens cifradas contra o governo que serem realmente canções. Em outros momentos, ocorria o inverso, ou seja, os motivos políticos, sociais, críticos, eram usados para fazer música, e aí tivemos canções de valoração estética variada, entre elas algumas obras-primas como Cálice ou Para não dizer que eu não falei das flores (Caminhando), que sobreviveram ao tempo não apenas como registros históricos.

E por que sobreviveram? Ora, porque sua dimensão de criação artística é maior do que a mensagem, seja política, seja social, seja mesmo amorosa. Se eu quero dizer que amo alguém, digo. Se faço uma canção, é porque quero algo mais do que dizer “eu te amo”, algo que talvez não tenha nada a ver com quem vai escutar, e talvez não tenha nem mesmo a ver com amor (e antes que retruquem, nem com sexo).

Ou seja, no fazer artístico cabe tudo, pois a arte pode falar de qualquer coisa, enquanto o fazer continuar artístico – e neste sentido seria possível falar de uma arte apolítica, já que o componente artístico é o que importa, e todo o resto é assessório.

Mas aí a porca torce o rabo, e por dois motivos. O primeiro é que canção é filho no mundo, não é possível controlar as significações posteriores dadas a ela. O Bêbado e a Equilibrista, de que já tratei aqui, não nasceu Hino da Anistia, nasceu samba-enredo. A significação política foi posterior, e não diminuiu em nada a beleza da composição, só a enriqueceu.

E o segundo é que, queiramos ou não, d’aprés Marx, todas as nossas ações – e mesmo inações – tem significação política, queiramos ou não. A escolha de tema para uma canção, o tratamento escolhido, o meio de transmissão, tudo isto tem conteúdo político que se imiscui no significado geral do que fazemos. Uma canção não significa apenas o que diz, mas como diz, porque diz, onde e quando diz. E isto envolve política.

Ah, mas não estamos falando de política, e sim de crítica. O problema é que a palavra crítica foi desvirtuada pelo uso, passou a ser associada a “falar mal”. Para o Aurélio, crítica é:

Arte ou faculdade de examinar e/ou julgar as obras do espírito, em particular as de caráter literário ou artístico.

Vejamos o exemplo dado no post abaixo, da música Amo muito tudo isso, do Rogério Skylab. A letra tem apenas uma frase, “Amo muito tudo isso”, o slogan do MacDonald’s, que é decomposto e recomposto furiosamente. Para dizer que há algum tipo de protesto apenas com estes dados é preciso muita boa vontade. Pelo contrário, a repetição do slogan dá a impressão de aprovação. E quando o autor da música diz que adora e frequenta o MacDonald’s e não tinha intenção crítica ao compô-la, parece que está tudo resolvido.

Acontece que não é suficiente. No momento em que Skylab toma um slogan publicitário como tema, isto implica numa atitude crítica em relação a esta “obra do espírito”. Sua repetição exacerbada pode ser tomada como aprovação absoluta ou como ironia. Sua transposição do universo “feliz” da publicidade para a atmosfera carregada do arranjo de rock pesado e sua interpretação compulsiva (como ele mesmo admite) criam uma espécie de mal estar em relação a este mesmo slogan. Sem dúvida é uma celebração, como sustenta Skylab, mas uma celebração de que? Como soaria esta música no palco de um MacDia Feliz? Amo muito tudo isso não é um “chute no saco do capitalismo”, mas também não pode ser tida como uma aprovação irrestrita. E sobre o fato de o próprio autor frequentar o MacDonalds: e daí? Trato da interrelação entre a vida particular do artista e sua obra neste post.

Em 1989 os Titãs lançavam o álbum Õ Blésq Blom, com a canção Flores.

Olhei até ficar cansado De ver os meus olhos no espelho
Chorei por ter despedaçado As flores que estão no canteiro
Os punhos e os pulsos cortados E o resto do meu corpo inteiro
Há flores cobrindo o telhado E embaixo do meu travesseiro
Há flores por todos os lados, Há flores em tudo que eu vejo

A dor vai curar essas lástimas, O soro tem gosto de lágrimas
As flores têm cheiro de morte, A dor vai fechar esses cortes
Flores, Flores, As flores de plástico não morrem

Muita gente não se deu conta na época de que esta canção narra uma tentativa de suicídio. Mas ela não se limita a isto. A idéia sufocante de flores por todos os lados, especialmente de plástico, de uma beleza falsa e forçada a ponto de ser desesperadora e associar-se à morte e não à vida (na voz soturna de Branco Mello, para piorar), este é o ponto chave da canção – uma crítica no sentido do dicionário, estética, mas cheia de desdobramentos políticos também. Crítica que poderia ser aplicada perfeitamente ao “mundo feliz” de Ronald MacDonald.

Nenhuma destas duas canções foi criada para “potrestar contra o Sistema”. Mas não é à toa que Rogério Skylab permaneça à margem dos sistemas de divulgação artística tradicionais, ou só apareça neles de forma anedótica, como nas entrevistas ao Jô Soares. Sua obra não é de protesto, como a dos Titãs também não. Mas é crítica, no sentido de analisar esteticamente outras manifestações estéticas e dialogar com elas. E é política, pois estas outras manifestações estéticas são sintomas de questões, aí, sim, políticas, sociais, econômicas. Estas são as maneiras de o artista se colocar no mundo. Talvez tenha passado a época de mensagens ocultas ou da crônica das eleições. Mas o artista continua, mesmo à sua revelia (o que não creio que se aplique aos casos em questão), sendo um agente transformador, não do mundo, mas de quem escuta sem a predisposição interpretativa, e está disposta, realmente disposta, a ouvir.

Flores – Titãs

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Crítica social na música: procurando pêlo em ovo?

Copio este post do Blog do Ronaldo. O blog está meio desativado, o texto é antigo, mas toca em algo que tenho interesse em discutir, este blog não é jornalístico e não tem obrigação de “gancho” para tratar de qualquer assunto. Trago para comentar depois, como já resolvi transformar em tradição instantânea por aqui. Quem quiser se aventurar, esteja à vontade, claro. Já adianto que não concordo integralmente, acho que o buraco é mais embaixo (o ponto de interrogação no título é meu). Mas ei-lo.

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Algumas décadas atrás era comum fazer música de protesto. Desde Woodstock até Imagine (a canção que mudaria o mundo), passando pelo messianismo do mascote favorito da ONU, Bono Vox. Para não falar nos punks “potrestando contra o sistema”.

Esse tempo passou. Todo mundo se deu conta de que guitarra alguma mudaria o mundo, nem mesmo se fosse incendiada e sodomizada no palco.

Mas ficou um estranho cacoete em alguns: uma necessidade quase patológica de encontrar crítica social em letra de música. Dane-se se nunca foi a intenção do compositor criticar o que quer que seja. Muita gente não aceita outra leitura. É a própria definição de whishful thinking.

Uma vítima certeira desse malabarismo mental é Rogério Skylab. Ele vive enfatizando em entrevistas que não quer saber de política, que não faz crítica social. Nesta entrevista ao UOL ele afirma isso textualmente, é impossível haver ambigüidade. Vejam a transcrição:

(06:19:05) Igres: Rogério, minha mãe é socióloga e, assim como eu, é fã do teu trabalho. Pra você, seu trabalho é mais arte, crítica social ou simplesmente compulsão?

(06:22:19) Rogério Skylab: Igres, destas três definições eu posso garantir o que não é: crítica social. Estou fora da política. O meu trabalho é anti hip hop e anti discursivo. Compulsão com certeza. Arte, acho que é.

E ainda assim, de tempos em tempos surge alguém cantando louvores às críticas sociais dos discos Skylab. Vejam este exemplar, que identifica “uma crítica ácida, violenta, um chute no saco do capitalismo” nas letras. É óbvio que a pré-disposição do cara em chutar o saco do capitalismo é tamanha que ele vai enxergar isso até na obra de Mises.

O pior é que essa mistificação pega. Confesso que eu mesmo, quando ouvi Amo muito tudo isso pela primeira vez, achei que fosse uma crítica ao McDonald’s. Nada disso. Skylab, na mesma entrevista, nega essa intenção, afirmando que adora ir ao McDonald’s.

Ele tem consciência de que a música, uma vez criada e lançada, foge ao controle do criador. Sua obra nunca foi criada como humor, mas nas entrevistas ao Jô a platéia ri o tempo todo (a platéia do Jô sabe fazer alguma coisa a não ser rir?). Faz parte do jogo. Botou no mundo, não é mais seu.

Ao final da perspicaz resenha, o blogueiro supra-citado conclui: ” A música de Rogério Skylab é realmente Fora da Grei!!!”.

E é mesmo. Fora, inclusive, dessa grei esquerdofrênica que não consegue passar 5 minutos sem “potrestar” contra o sistema.

Amo muito tudo isso – Rogério Skylab

P.S. Para registro: Este blog chegou hoje à marca de 1000 visitas. Obrigado pela preferência.