Canções de guerra, canções de amor

Não é suficientemente difundida, mas deveria, a história de como a canção Novo Tempo, de Ivan Lins e Vitor Martins, por muito pouco não foi gravada por Michael Jackson no álbum Thriller. Eles foram contatados pela produção, negociaram os termos do contrato, mas quando este foi enviado, não respeitava nada do acertado, tinha termos draconianos. Ele mesmo conta, em entrevistas à revista Época e ao jornal O Globo:

– E a história de que o Quincy (Jones, produtor de Thriller) tinha selecionado uma música sua para o disco Thriller, do Michael Jackson? É verdade?
Ivan – Sim, é verdade mesmo! Assim como Quincy , me deu uma ajuda inestimável (Quincy deu um grande impulso na carreira internacional de Ivan), o advogado dele conseguiu tirar minha música do Thriller (risos). Eles haviam escolhido Novo Tempo, minha e do Vitor Martins. Mas, quando chegou o contrato, não teve acordo. O advogado queria que a gente cedesse todos os direitos. Eu não podia assinar aquilo. A gente sonhava em fazer um grande sucesso internacional, mas não a esse preço. Na verdade, eu e o Vitor, quando recusamos o contrato, não sabíamos que a música já estava incluída no Thriller.

– Você sabe se ela chegou a ser gravada?
Ivan – Há alguns meses, me disseram que existe uma gravação do ensaio do disco. Mas, até agora, essa gravação não apareceu. Não sei se é verdade. Mas também não posso querer tudo, né? Hoje, eu faço piada disso. Se o Michael tivesse gravado Novo tempo, eu estaria morando nas Ilhas Fiji e vocês não teriam o prazer de ouvir minhas músicas (risos).

Enquanto os advogados se digladiavam, o Quincy chegou a me mostrar, por telefone, umas ideias que estavam tendo para nossa música. E o letrista ia ser Rod Temperton, que me ligou um dia para saber o que dizia a letra em português. Falei que era sobre esperança de um mundo melhor, e me lembro muito bem da frase que ele disse: “Oh, Michael is gonna love that!” (O Michael vai adorar!”)

O que é que tornou a obra de Ivan Lins o sucesso internacional que é hoje, querida e gravada por cantoras como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Carmen MacRae, entre outras? Para além da inegável qualidade, da relação harmonia/melodia e da estruturação sólida de suas canções, há algo mais, que talvez possa ser definido como um sotaque específico que, sem perder a referência brasileira, torna-se palatável e mesmo traduzível facilmente. Isto se dá sem dúvida pela influência jazzística que Ivan carrega desde o começo de sua carreira. Mas há algo mais, que envolve mesmo as letras de Vitor Martins. Não se trata tanto das referências à cultura brasileira. Estas são tão encontráveis na obra de Ivan quanto nas de Caetano Veloso ou Chico Buarque. O que as faz diferentes e permite uma abordagem mais fácil por parte do estrangeiro é a forma destas referências. Boa parte das canções de Caetano, por exemplo, exige do ouvinte um mergulho aprofundado no universo que as alimenta, sem o qual perdem bastante em termos de leitura.

Tomemos uma canção como O Estrangeiro, de que já tratei aqui, há tempos. Mesmo que a canção possa ser ouvida sem se ter em mente questões específicas do Brasil, sem dúvida perde-se muito ao não levá-las em consideração. Nas canções de Ivan, obviamente isto também ocorre, mas de modo diferente, e mesmo em menor grau. Numa palavra, e correndo o risco de fazer uma generalização, elas sobrevivem melhor à desreferencialização. Permanecem muito mais íntegras que as de outros compositores, mesmo quando recebem versões. Sua ênfase composicional está na construção da canção, mais do que na construção de diversas camadas de leituras. ou estas leituras atuam de forma muito mais independente umas das outras.

Isto também não significa que Ivan tenha se descolado da realidade brasileira, muito ao contrário, já que ele é um militante político desde o início de sua carreira, e nunca se furtou de tratar do assunto em suas canções. A própria Novo tempo é fundamentalmente um balanço da abertura política em curso no ano de seu lançamento, 1980, logo após a aprovação da Lei da Anistia. No entanto, isto não teria impedido que Michael Jackson a tivesse gravado com a intenção determinada por Ivan no telefonema de Rod Temperton: uma canção sobre a esperança de um mundo melhor. A significação política brasileira não a diminui, mas o caráter universal se superpõe e, dependendo da circunstância, se impõe. Uma canção do mesmo período de Chico Buarque dificilmente teria a possibilidade de ser lida desta forma, o que não a torna nem mais nem menos datada. É de diferenças no ponto de partida da criação artística que estamos tratando.

Os álbuns e as canções de Ivan na segunda metade dos anos 1970, primeiros anos de sua parceria com Vitor, são ao mesmo tempo os momentos de amadurecimento da forma composicional de Ivan, que o levaram a ser descoberto pelo produtor Quincy Jones (através do percussionista brasileiro radicado nos EUA Paulinho da Costa), que apresentou sua música a inúmeros músicos norteamericanos, e uma etapa de participação política muito intensa. Neste período, enquanto seu som se tornava mais internacional, ele fazia um inventário e um balanço particulares do Brasil, revendo o passado e apontando o futuro. Novo tempo é como que a conclusão deste processo, que se inicia muito antes.

Aos Nossos filhos – 1978

O anti-acalanto que encerra o álbum Nos dias de hoje é um acerto de contas com o passado, na forma de uma carta para o futuro. Ivan e Vitor rememoram os anos de chumbo, que então aproximavam-se vagarosamente do fim, e expressam a tênue esperança de dias melhores, ainda que não para eles próprios. Nas canções de Ivan, um elemento interessante de ser analisado é a terminação das frases musicais. Assim como os saltos melódicos amplos, um dos elementos que o torna preferido dos intérpretes, a terminação ascendente é quase uma marca registrada dele, expressando de certa forma um otimismo implícito, quase sempre traduzido em versos correspondentes por Vitor Martins. Em Aos nossos filhos, no entanto, os versos finais da primeira e da segunda estrofes (o ciclo de três estrofes se repete na segunda parte) terminam descendentes, como a expressão de um cansaço, um desânimo após uma luta intensa, ao passo que a terceira estrofe, de melodia repetida na última, termina ascendente, mas por sua vez carregada de tensão, como que num esforço sobre-humano de otimismo, num rasgo de esperança quase forçado.

Aos nossos filhos é o retrato de um tempo sombrio e de sua herança. Mas no álbum seguinte, Ivan e Vitor trariam uma canção que seria como que a demostração do caminho da mudança a ser trilhado.

Começar de Novo – 1979 (em gravação mais recente)

Começar de novo é a demostração cabal da dicotomia política/amorosa de Ivan Lins. Em seu sítio eletrônico, o próprio Ivan conta que ela foi composta com a intenção de ter uma dupla leitura:

A letra, que não traz definição de gênero (não fala nem no feminino nem no masculino), na verdade era uma profunda e muito criativa crítica à ditadura militar, com menções inclusive ao presidente Figueiredo, mas elaborada de maneira que a ambigüidade não prejudica nem a crítica política e nem o sentido amoroso da canção, além de ter conseguido driblar a terrível censura que sofriam os artistas da época.

(A menção a Figueiredo está nas esporas, já que ele era um entusiasta de esportes hípicos, e chegou a declarar que preferia cheiro de cavalo ao de povo.)

O uso deste duplo vínculo político/amoroso não era novidade na MPB que driblava a censura pra se manifestar contra o totalitarismo. Entre muitas outras, Apesar de você, de Chico Buarque, usava este mesmo expediente. A diferença é que a canção de Chico mal disfarçava sua índole, mantendo as duas leituras geminadas, interdependentes – o que não a impede de se perenizar para além do contexto específico para o qual foi feita. Prova disso é justamente a reação da censura, ao finalmente se dar conta do caráter subversivo da canção – os compactos à venda foram recolhidos e a Apesar de você foi peremptoriamente proibida. Começar de novo, por sua vez, tornou-se abertura de uma série de sucesso da Rede Globo, Malu Mulher. Embora esta série tenha sido considerada avançada para a época pelo viés feminista, por retratar uma mulher descasada e com vida profissional, ainda assim, nela a leitura da canção de Ivan Lins é predominantemente da relação a dois, e isto se dá porque as duas leituras possíveis permanecem independentes. Isto permitiu, por exemplo, a versão em inglês de Alan & Marilyn Bergman cantada por Barbra Streisand, com o estranho título de The island (!)

De qualquer forma, Começar de novo representa um passo adiante em relação a Aos nossos filhos. Diferentemente desta, tem todos os versos terminados em curva ascendente. Permanece a tônica da avaliação do passado versus apontamento de possibilidades de futuro, mas desta vez a visão é eminentemente otimista, e as benesses que virão serão aproveitadas não pela geração segunte, mas pelo próprio eu lírico. Retomada pessoal/coletiva que abre caminho para

Novo tempo (o título está errado no vídeo) – 1980

Novo tempo é uma das canções mais otimistas que se pode imaginar, uma trilha sonora da abertura política, com a anistia no ano anterior, e que desembocaria na redemocratização poucos anos depois. O furação parecia ter passado. Ao contrário das baladas precedentes, Novo tempo tem um andamento apropriado para uma caminhada, o que pode trazer a associação com uma manifestação popular, reforçada pelos versos a gente se encontra / cantando na praça (particularmente, me lembra Penny Lane, com o piano bem ritmado dando o tom da atmosfera otimista de ambas – impressão reforçada especialmente quando um trompete faz frases de ligação entre as estrofes, assim como na canção dos Beatles.)

Ivan usa aqui um recurso recorrente em suas melodias: a frase que vai sendo repetida cada vez mais aguda, como em Estamos crescidos / estamos atentos / estamos mais vivos e no refrão (agora frases descendentes, mas sempre com um salto para o agudo na última sílaba, como que não admitindo o menor traço de desânimo) Pra que nossa esperança / seja mais que a vingança / seja sempre um caminho / que se deixa de herança. Porém, desta vez o agudo final não soa como um esforço, mas como uma consequência natural, uma conclusão, uma reafirmação: dias melhores já estão vindo.

Dois termos usados por Vitor Martins em Novo tempo traçam a continuidade com as canções anteriores: Pra nos socorrer, verso repetido várias vezes ao longo da canção, com o verbo aplicado de forma pouco usual, assim como em Começar de novo (no verso Ter me socorrido); e, de forma mais sutil, os versos finais, citados logo acima, todos eles uma resposta a Aos nossos filhos. Apenas dois anos antes Ivan e Vitor pareciam mal enxergar um legado a ser deixado, a ponto de pedirem uma espécie de herança às avessas: Quando colherem os frutos / digam o gosto pra mim. Apesar de tudo, havia sementes plantadas, mas a realidade só justificava o canto acabrunhado de um pedido de perdão. Novo tempo é o panorama oposto: as sementes estão frutificando, não há porque pedir perdão. De certa forma, é a canção dos filhos: apesar dos castigos / estamos crescidos.

E no entanto, Michael Jackson (ou melhor, Rod Temperton, ou a síntese de Ivan para ele) não estava errado. Novo tempo é, sim, uma canção sobre a esperança de um mundo melhor, nada menos. Assim como Aos nossos filhos pode ser a carta de toda geração à seguinte, desde o início dos tempos. As canções de Ivan Lins e Vitor Martins tem esta capacidade de permitirem leituras sobrepostas porém estanques, e o fazem sem perder um pingo de sua densidade. Se o sucesso no exterior se dá em detrimento de uma das possibilidades de entendimento, pior para os gringos, e se Novo tempo não entrou em Thriller unicamente por desentendimentos jurídicos – e falo muito sério agora – pior para o Michael, que perdeu a oportunidade de trazer para seu universo (vide canções posteriores dele como Heal the world) e universalizar uma tremenda canção. Oportunidade que Elis Regina fez questão de não desperdiçar, e cuja inacreditável interpretação de Aos nossos filhos em um especial de TV em 1980 fica como brinde.

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To get

Esse post eu peguei (I got) do ótimo Duas Fridas, blogue de mulherzinha, mas e daí, qual é o problema? (Eu ia dizer, mulherzinha, mas inteligente, mas aí achei demais. Quer dizer, demais da minha parte. Ah, deixa pra lá). O que me chamou a atenção foi como é que as diversas atribuições de sentido dadas a uma mesma palavra – afirmativas, negativas, esperançosas etc. – são acompanhadas pelo espírito dos arranjos – desvairados, soturnos, celebratórios etc. Mais adiante me estendo, como de costume. Beijos, Helê, que não conheço pessoalmente, e Mônix. E parabéns pro Christian, que nem sei quem é.

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Os caras de uma banda chamada New radicals* defendem que you only get what you give, o que soa um tanto cínico e interesseiro, meio ‘toma lá, dá cá’ –  mas a canção é boa e não se pode dizer que eles estão errados de todo (*acho graça nesse nome só de pensar no oposto, “old radicals”).

Já o Jimmy Cliff, com o sempre ensolarado reggae, garante que you can get it if you really want it –  não sem tentar bastante.  Funcionou pro Jack Nicholson, ao menos, numa cena hilária de “Alguém tem que ceder” em que ele quer voltar à atividade sexual depois de um infarte.

Gregory House diz a que veio no primeiro episódio da série, quando cita “o filósofo Jagger”.  Ninguém soa mais verdadeiro para mim que Mick ao advertir que you can’t always get what you want. Um clássico inconteste, um verso conciso, áspero  e belo. Depois de repetir a sentença –  uma, duas vezes, talvez para aniquilar qualquer dúvida ou otimismo inconsequente -, ele reconhece a possibilidade de que, sometimesyou just might find what you need. Dureza a vida real, né?

Sabendo de toda essa dificuldade, Janis Joplin aconselhou com sua voz rascante e urgente: não dispense amor e afeição,  get it while you can. Para alguém que teve uma vida tão curta quanto intensa, a canção tem ares quase premonitórios.

Michael Jackson teve a mesma sacada, quando ainda era preto, no que eu creio que foi seu primeiro sucesso solo. Ainda não havia ali a angústia embebida em solidão, álcool e outras cositas mais de Dona Janis, mas outro tipo de premência: a avidez juvenil, aquela que quer sorver a vida em grandes goles. Michael, ainda muito jovem, já era esperto o suficiente para decretar: don’t  stop ’til you get enough.

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Apenas um pretexto para uma pleilist. Ou uma lição de inglês sobre o verbo to get. Ou umas canções que me ocorreram porque ultimamente I can’t  get no (satisfaction), at all. But I try.

Ou ainda um jeito diferente (e barato) de desejar que o Christian, no dia do aniversário dele, gets everything he wants, needs  & deserves. Para um dos nossos mais leais leitores, tudo de bom e  só as melhores canções.

Fulano de Tal – Vida e Obra

Em 1988, Cazuza voltou ao Brasil, depois de um curto período nos EUA, e lançou o álbum Ideologia. Nele havia a canção Boas Novas, que dizia:

Senhoras e senhores, trago boas novas
Eu vi a cara da morte, e ela estava viva!

No entanto, Cazuza oficialmente estava apenas recuperando-se de uma pneumonia que se complicara um pouco. Ele só admitiria publicamente ser portador do HIV no ano seguinte. Isto não o impediu, neste trabalho como eu todos os anteriores e posteriores, de colocar abertamente sua vida particular tanto em suas composições como na escolha de repertório alheio, como ao cantar Luz Negra, de Nelson Cavaquinho, a ponto de a revista Veja tê-lo colocado na capa – uma foto de quando pesava 40 quilos – com a manchete Uma vítima da Aids agoniza em praça pública, que causou enorme repercussão.

Cazuza foi um exemplo, como Michael Jackson no artigo abaixo, de artistas que são pratos cheios para exegetas, por colocarem – ou parecerem colocar, em certos casos – suas experiências reais, vividas, em sua obra. Isto dá ao seu trabalho artístico um sabor especial que vai bem além do valor estético: a sensação de penetrar na sua intimidade, pois suas canções são também, de certa forma, confissões. Mas para isto, em tese, é necessário que suas vidas sejam muito interessantes, é claro. Ou que sejam tornadas muito interessantes, e temos diversos exemplos de artistas que, independente do mérito de suas obras, sabem como ninguém utilizar a mídia a seu favor “criando” fatos pessoais para a promoção de sua arte. Mas o que dizer de uma vida absolutamente comum? Será capaz de suscitar uma boa canção?

Um Dia Útil, com Maurício Pereira:

Por outro lado, há uma espécie de senso (ou lugar?) comum de que a arte consiste na “expressão de sentimentos e emoções”. É óbvio que o artista, para criar, usa a si mesmo como matéria prima – seus conhecimentos, experiência, vivências (um amigo meu não pode ouvir ninguém dizer “Na minha opinião…” sem interromper: “Claro que é a sua, de quem mais?). Daí a considerar que obrigatoriamente as vivências relatadas são dele… Chico Buarque, célebre, entre outras coisas, por suas canções sob o ponto de vista feminino, que o diga.

O Meu Amor, com Chico Buarque:

Noel Rosa compôs Três Apitos para uma namorada chamada Josefina, que começara a trabalhar numa fábrica de botões no Andaraí. Noel foi procurá-la em seu carro velho, pensou que trabalhava em outra fábrica próxima, de tecidos.  A história desta confusão pode ser lida neste ótimo artigo.

Noel Rosa, em Três Apitos, fez uma descrição precisa das transformações profundas por que passavam o Rio de Janeiro e o Brasil na década de 30: a rápida industrialização da zona norte, as condições precárias do proletariado (“você no inverno/ sem meias vai para o trabalho”), a proliferação do automóvel, a popularização da publicidade (“quando a fábrica apita/ faz reclame de você”), enfim, uma nova cidade que se punha de pé. Esta análise econômico-social pode ser lida neste ótimo artigo.

Três Apitos é uma obra-prima porque, aliada à sua sensacional qualidade técnica e expressiva (colocando a palavra “grito” na nota mais aguda da música, por exemplo), traz algo do que o artista Noel Rosa era e do que ele via. Traz suas vivências transfiguradas, sua visão de mundo estilizada, e se torna bem maior que ambas. Se é verdade que sempre há uma parcela do público que quer o sangue do artista, cabe a ele realizar o milagre cotidiano da transformação deste sangue em vinho para oferecê-lo ao público. Sua vida não precisa ser espetacular para que sua obra o seja. Seu sangue não durará; o vinho, se tiver qualidade, ficará mais saboroso ao envelhecer, e sobreviverá a ele.

Três Apitos, de Noel Rosa, com Tom Jobim:

O homem no espelho e nós

Este artigo sobre Michael Jackson foi escrito no primeiro aniversário de sua morte pelo jornalista Pedro Alexandre Sanches para o portal do iG, sendo republicado em seu excelente blog pessoal. É uma boa reflexão sobre a relação entre a vida de um artista e sua obra – e nossa relação com ambos. Tema a ser desenvolvido mais adiante.

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Já faz um ano. O mundo ficou em estado de choque quando soube da morte de um dos heróis pop que mais lhe ofereceram alegria, diversão e prazer nas três últimas décadas do século passado. Mas sejamos francos: fazia anos que a humanidade esperava que, qualquer hora dessas, acontecesse alguma tragédia com Michael Jackson. Sejamos ainda mais transparentes: fomos cúmplices impassíveis, quando não exultantes, de uma das mais prolongadas histórias de agonia pública de que se tem notícia. As transformações, deformações e mutilações físicas eram apenas a face mais visível do processo.

Michael era um gênio musical, muitos correram a reconhecer a obviedade quando ele morreu. Mais embaraçoso foi, é e será reconhecer que grande parte da genialidade brotava justamente do sofrimento brutal que ele vivenciou (quase) publicamente desde que era o garotinho-prodígio do grupo Jackson 5, dirigido e tiranizado por um pai violento e abusivo (e pela indústria musical que sustentava o “fenômeno”). Entre as ofensas praticadas rotineiramente por Joe Jackson, sobressaíam aquelas relacionadas à cor da pele e à aparência física do filho, como Michael relatou pela primeira vez em 1993, no programa de Oprah Winfrey. Pode ser um exercício elucidativo rever suas músicas e letras após um ano, à luz não da festa e da farra, mas de tudo que o menino que nunca cresceu vivia enquanto cantava.

Aos 8 anos ele começou a se tornar a atração principal entre os Jackson 5, e aos 13 iniciou uma carreira solo paralela à trajetória de sucesso do grupo. No primeiro disco individual, Got to Be There (1972), havia uma canção infantil chamada “Rockin’ Robin”, cujo protagonista era um melro roqueiro às voltas com outros pássaros, entre eles um “grande corvo preto”. O melro tomava aulas de “hop” e “bop” de um “corvo pequenino”, enquanto Michael disparava a trinar, “tweet, tweet, tweet”.

O personagem-título do segundo LP, Ben (1972), era um ratinho abandonado (e negro, também, como exibia a capa deletada em reedições posteriores), cujo único amigo era o intérprete-narrador. “Você sente que não é bem-vindo em lugar nenhum”, lamentava o pré-adolescente de cabelo black power que apenas iniciava a escalada épica para ser adorado, desejado e idolatrado pelas multidões.

Em 1973, lançou Music & Me, entre funks chamados “Johnny Raven” (“eu sou Joãozinho Corvo”) e “Euphoria”. O narrador dessa última é um garoto que “vê o arco-íris brilhar” e “repousa numa cama de flores”, “sem conhecer doenças” e “sem tomar pílulas”. Podia parecer euforia (era?), e Michael não escrevia suas próprias canções naquela época, mas o recado era pesado para um garoto de 14 anos que mais tarde faria pós-graduação em “pílulas” e “doenças”.

Michael estava a duas semanas de completar 21 anos em agosto de 1979, quando lançou o esboço emancipatório Off the Wall, recheado de proposições eufóricas como “não pare até conseguir o suficiente”, em “Don’t Stop ‘Til You Get Enough”, o primeiro cartão de visita para que o “corvinho” se convertesse em um dos donos do mundo. Algumas letras do disco pareciam falar mais de um operário na meia idade que de um vigoroso pós-adolescente. Em “Workin’ Day and Night”, escrita por Michael em pessoa, o narrador trabalhava “do nascer do sol à meia-noite”, sentia dor nas costas e ao final exclamava, como quem não quer nada: “Estou tão cansado”.

Em “Off the Wall” (composta por Rod Temperton), gritos fantasmagóricos anunciavam a chegada do monstro pop que carregava “o mundo nas costas”, mas preconizava uma vida devotada à música e à diversão: “Somos os ‘party people’ noite e dia/ o único jeito é viver malucos”. Uma frase solta era ouro para bons entendedores: “A vida não é tão ruim assim”.

A emancipação de fato (ou a escravidão definitiva?) viria três anos depois, com Thriller (1982), que viraria de ponta-cabeça não só a vida do artista, mas toda a história do pop e da indústria musical. A importância crucial do disco reside no fato de Michael ter encontrado ali a pedra filosofal da fusão entre o funk-soul negro e o rock’n’roll branco – o “black and white”, a mestiçagem, o acasalamento que o mundo aclamaria de pronto, mas não perdoaria jamais a partir do momento em que percebesse que o menino negro supostamente desejava se metamorfosear em homem (ou mulher?) branco(a). Não desejava – só queria deixar de ser ele mesmo, mas isso a massa não quis ou não soube perceber.

Thriller condecorou a humanidade por sua própria “viralatice”, mas para Michael era a materialização dos pesadelos mais íntimos. O desabafo, esse sim emancipador, permeia cada linha da faixa-título, obra-prima máxima do funk de terror, do rock de arrepio, do pop de lobisomem: “você está paralisado”, “há demônios por todo lado”, “ninguém vai salvá-lo da besta à espreita”, “este é o final da sua vida”. Seria Joe Jackson um dos nomes da besta? “Se você não pode alimentar um bebê, não tenha um bebê”, diz um verso de “Wanna Be Startin’ Somethin’”, parente próximo do drama de (não-)paternidade de “Billy Jean” (“o garoto não é meu filho”).

Se em Thriller Michael queria estar começando alguma coisa (o começo era o fim?), o resto de sua vida seria gasto na busca obsessiva (nunca alcançada) da autossuperação. Se em 1979 a vida era ruim, em 1987 ele tomaria para si o rótulo de Bad. “Sua fala é ordinária/ você não é um homem/ você atira pedras para esconder suas mãos”, dizia o autor-narrador da faixa-título, como de hábito usando “você” em vez de “eu”. “Man in the Mirror” (composta não por ele, mas por Glen Ballard e Siedah Garrett) continha o maior conselho que nosso Peter Pan deu a si mesmo, mas não quis ouvir (ou ouviu de modo plástico, deturpado): “Se você quer fazer do mundo um lugar melhor/ dê uma olhada em si mesmo e comece aí a mudança”.

Michael não conseguiu superar Thriller ou a si próprio nos discos da década de 90, mas eles guardam vários dos mais belos, pungentes e dramáticos depoimentos de dor e desespero da história da música, sempre recebidos por nós com ouvidos moucos. Primeiro, veio Dangerous (1991), quando o autor já se sentia “perigoso”. “Confusões contradizem a identidade/ sabemos distinguir o certo do errado?”, pergunta “Jam”. “Eu sou o amaldiçoado/ eu sou o morto/ eu sou a agonia dentro da cabeça moribunda”, declara “Who Is It”, mais transparente que H2O. “Todo mundo me controla/ (…) estou tão confuso”, diz “Will You Be There”. “Agora faremos um juramento, vamos manter tudo dentro do armário”, deseja “In the Closet”, em dueto com a princesinha branca Stéphanie de Mônaco.

Lançada dois anos após as primeiras acusações de que o ex-abusado tivesse virado ele próprio um abusador de crianças, a coletânea HIStory (1995) foi compreendida como um esforço de automitificação, o que abafou o fato prosaico de que ela continha um disco inteiro inédito, e profundamente revelador. “Parem de me pressionar”, “parem de me foder”, “estou cansado de golpes e tramoias”, começava “Scream”, em duo com a irmã Janet Jackson. “Aqui abandonado em minha fama/ armageddon da mente”, declarava-se em “Stranger in Moscow”. “Você viu minha infância?/ estou procurando pelo mundo do qual eu vim”, “é minha sina compensar a infância que nunca tive”, confessava em “Childhood”, já num pique de autovitimização. “Mike é mau, eu sou mau, quem é você?”, provocava o jogador de basquete Shaquille O’Neal em “2 Bad”.

Dois momentos eram especialmente eloquentes em HIStory. Um era “Tabloid Junkie”, em que Michael direcionava sua ira e revolta contra a mídia sensacionalista refestelada em popularidade e dinheiro à custa de seus apuros. “Especulem para ferir quem vocês odeiam/ circulem a mentira que confiscam/ assassinem e mutilem”, cuspia na cara da “mídia canina histérica”. “Só porque você lê numa revista ou vê numa tela de TV não significa que seja real, factual”, tentava ensinar, anotando que “comprar é alimentar”, mas esquecendo-se de que ele próprio era uma das muitas faces do dragão chamado “mídia”. “Mas todo mundo quer acreditar em tudo”, acabava por desabafar, espalhando o próprio desabafo para os fãs que, afinal, também são abusadores em potencial.

O outro instante em que o “rei do pop” estava nu em HIStory era a valsa “Little Susie”, sobre uma garotinha abusada, espancada e assassinada por um monstro não nomeado (poderia ser Joe Jackson?). “Todo mundo veio ver a menina que agora está morta”, “ela sabia que ninguém se importava”, “abandono pode matar como uma faca”, gemiam versos que pareciam a consumação dos pesadelos inconsequentes de Thriller.

Em 1997, o álbum de remixes Blood on the Dance Floor trazia algumas poucas faixas inéditas, quase todas referentes a fantasmas, gente assustada, sangue na pista de dança. Musicalmente pálido, dizia tudo sobre o estado de espírito do (ex-)herói, se quiséssemos ouvir. “Morphine”, por exemplo, era um drama funkeado de dor e anestesia: “um ataque cardíaco, baby/ preciso do seu corpo”, “outra droga, baby/ você deseja tanto”, “confie em mim/ você está tomando morfina”, “você odeia sua raça, baby/ você é só um mentiroso”. “Demerol/ Demerol/ oh, Deus, ele está tomando Demerol”, cantava o funk hospitalar, em referência ao medicamento analgésico e sedativo que em 2009 seria apontado como o causador de sua morte.

“Ghosts” falava sobre “um demônio embaixo da cama” e confrontava mais um sujeito oculto (ou a vários): “Quem lhe deu o direito de mexer com minha família/ de assustar minha família/ de machucar minha família?”.

“It’s Scary” abria o jogo mais do que nunca. “Estou divertindo ou apenas confundindo você?/ sou a besta que você vê e quer ver?/ excentricidades/ serei grotesco para seus olhos”, começava. “Você veio a mim para ver suas fantasias encenadas diante de seus olhos?/ se veio para ver a verdade e a pureza/ aqui está um coração solitário/ deixe a performance começar”, anunciava a tormenta. “Fico assustado no seu lugar?/ estou cansado de ser abusado/ você sabe que me assusta também/ vejo que o demônio é você/ é assustador para você, baby?”, vomitava, desta vez falando a um “você” que poderia ser ele mesmo, o pai, eu ou você. No derradeiro Invincible (2001), “invencível”, o mesmo tema seria reelaborado na ressentida faixa-testamento “Threatened”, “ameaçado”: “Eu sou o seu pior pesadelo”, “vou desaparecer, e então voltarei para assombrar você”.

Essa era a voz que poucos de nós ainda queríamos ouvir. O pacto ilusionista estava se quebrando, Michael estava indo além dos limites tradicionalmente permitidos. A pergunta deixada no ar, desde muito antes de sua morte, era se tínhamos gostado tanto dele só porque era um gênio, ou também porque nos confortava secretamente vê-lo se destroçando diante de nossos olhos e ouvidos e fígados. Ora, se o cara mais famoso do planeta era mais desgraçado do que nós…

Música para ver

– Ando preocupada com a Luna. Ela não ouve música!

– Como assim? Ela ouve música o dia inteiro!

– Não ouve, não. Ela assiste desenhos que tem música, assiste videoclips, entra no YouTube, mas música mesmo não ouve quase nunca!

Tive este diálogo com minha mulher outro dia. A partir dele, pensando no assunto, fiquei com a impressão de que, na verdade, a separação entre a audição da música e a visão é coisa inventada recentemente, que durou pouco e já está acabando.

Até a virada do século XX, música significava música ao vivo. Não havia nenhuma técnica de gravação, e partitura, além de ser para poucos iniciados, não é a música nem ilustração para ela. Portanto, assistir música era estar presente – e no caso da musica popular, em boa parte dos casos significava também participar de algum modo. Já na música clássica, foi criada uma variação: o fosso da orquestra. Tornando os músicos invisíveis, produziu-se o primeiro divórcio entre a imagem e o som, ainda que a voz cantora permanecesse em cena. Mas no caso de um balé, a separação tornou-se absoluta. Era revolucionário, mas ainda assim a imagem acompanhava o som, de maneira indispensável.

Revolucionário mesmo foi quando as primeiras gravações comerciais apareceram, com seu som roufenho, distorcido, mas ainda assim um milagre. A semelhança com a realidade era quase nenhuma, e nos estúdios era necessário criar toda uma ambiência para possibilitar algum tipo de registro. Mas o divórcio agora se anunciava definitivo. Ou quase.

Isto é Bom, de Xisto Bahia, primeira música gravada no Brasil.

As tecnicas de gravação continuaram a se desenvolver. Surgiu a alta fidelidade, depois a tecnologia digital, até se chegar ao ponto de uma gravação ao vivo soar tão boa quanto uma de estúdio. Mas paralelamente a este caminho, outro foi trilhado em sentido contrário, e se chamou videoclip. Dizem que os Beatles começaram tudo (E o que os Beatles não fizeram primeiro?)

Lucy in the Sky with Diamonds – trecho do filme Yellow Submarine.

I am the Walrus – trecho do fime Magical Mistery Tour.

O resto se sabe. MTV, Michael Jackson… Caetano Veloso, em 1989, publicou um artigo na Folha de São Paulo com o ambíguo título Vendo Canções. Nele, tratava do videoclip como arte (quase) independente da canção, ao mesmo tempo que como peça de publicidade dela. Comentava, por exemplo, que gostava do clip de Radio Gaga do grupo Queen, com referências e trechos do filme Metrópolis, do diretor impressionista alemão Fritz Lang, mas a música em si não o interessava tanto. Era a imagem retomando seu lugar junto ao som, mas agora podendo tomar todas as liberdades possíveis.

Thriller

Radio Gaga

Hoje que a MTV não toca mais quase música, em compensação a Internet abriu as portas da percepção a quem vem chegando agora. Minha filha de cinco anos se vira no computador com grande desenvoltura e emenda um clip atrás do outro. Sim, sendo minha filha, ela ouve música sem imagem também. Mas não posso deixar de pensar que talvez esta seja a última geração a fazer esta diferenciação tão claramente. Será?

Não. Embora a venda de DVDs com shows hoje seja quase superior à de CDs, o formato mp3 associado aos leitores portáteis quase onipresentes permite um fenômeno inverso da visualização da música, que é a sua individualização absoluta e sua escuta em qualquer lugar. Assim, a relação escuta/visão musical vai cumprindo suas indas e vindas simultâneas: da música gravada substituindo a ao vivo, do videoclip na contramão trazendo a imagem de volta, do mp3 na contramão do videoclip privilegiando a pura escuta individual. E me arrisco na futurologia, ao dizer o próximo passo: a tecnologia permitir a participação na música paralelamente e na contramão da individuação do mp3, como antes das gravações, mas diferente, como sempre. A conferir daqui a alguns anos. Ou daqui a pouco. Provavelmente a Luna me manterá informado.