Stayin’ alive in the wall – Um Mashup

Já falei sobre mashup – a mixagem / fusão de duas ou mais músicas sobrepondo ou alternando elementos delas – aqui, mas confesso que conheço bem pouco sobre o assunto. Mas o Edu Corrêa, que tem o blog Diálogo Externo, me indicou este sensacional mashup do site Wax Audio de Stayin’ Alive, dos Bee Gees, e Another Brick in the Wall Part II, do Pink Floyd.

Stayin’ alive in the wall (Pink Floyd vs Bee Gees Mashup) – Wax Audio

Meu interesse por um mashup diminui na medida em que ele é apenas uma piada e aumenta quanto mais ele consegue realmente fazer com que as duas ou mais músicas que o formam se tornem uma terceira coisa. Já vi vários mashups que não passam de colocar a voz de uma canção sobre o arranjo de outro, o que na verdade é o que convencionou-se chamar música incidental. Mashup bom é quando se consegue ouvir elementos soando ao mesmo tempo e contracenando um com o outro, e quando as idéias e os climas das músicas interferem uns nos outros a ponto de gerar outras idéias e climas. É quando se pode dizer que criou-se algo.

E o que me deixou impressionado neste aqui foi justamente que o que poderia parecer uma bobagem pela diferença absurda entre as duas músicas, que soam absolutamente opostas, digamos, ideologicamente, uma espécie de celebração individualista e convite à dança de uma lado do ringue, e uma crítica feroz ao autoritarismo e à alienação com o fogo centrado na sala de aula, do outro.

Pois o resultado me surpreendeu. Primeiro pelo fato de a harmonia das duas se encaixar perfeitamente. A passagem para a segunda parte com o efeito de estúdio de Stayin’ Alive somado à guitarra de David Gilmour ficou perfeita, e a frase “life goin’ nowere, somebody help me” tem seu sentido totalmente alterado ao anteceder o grito de Gilmour: “Hey! Teacher! Leave us kids alone!” Isso sem contar a sobreposição perfeita entre a linha de baixo de Roger Waters, e o desenho da guitarra de Barry Gibb, marcas registradas das duas canções. O que poderia ser uma briga (os mashups costumam ser apresentados com a fórmula “artista ‘A’ versus artista ‘B'”) se transforma em uma conjunção, o resultado final, se não maior, é bem diferente da soma das partes. Valeu, Edu.

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Para Barret e Waters

Uma vez, faz tempo, folheando uma dessas publicações que contam a história do rock (esta era uma enciclopédia inglesa, em sua edição brasileira), levei um susto ao dar de cara com um capítulo inteiro da parte nacional dedicada… ao Clube da Esquina.

Que o Clube da Esquina já devia muito aos Beatles, não era novidade, em especial pelas mãos de Lô Borges, autor de Para Lennon e McCartney. Mas Minas Gerais foi também terreno fértil para o rock progressivo desde a década de 1970. Grupos como O Terço, que gerou mais tarde o 14 Bis, e mais recentemente o Sagrado Coração da Terra, de Marcos Vianna, conseguiram uma boa projeção (este enveredando pelo terreno da chamada new age). Mas o grupo Som Imaginário, ao acompanhar Milton no álbum Milagre dos Peixes ao vivo, de 1973, foi quem traçou mais fortemente esta relação.

Pelo Som Imaginário passaram nomes e mais nomes da música brasileira – Wagner Tiso, Tavito, Robertinho Silva, Zé Rodrix, Naná Vasconcelos, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta, Paulo Braga, entre outros. E sua sonoridade era pautada em grande parte pela corrente musical que abrigava Pink Floyd, Genesis, Jethro Tull, pelas experimentações que estas bandas realizavam procurando sonoridades novas e aliando a um virtuosismo instrumental uma postura (a chamada atitude rock) combativa e contestatória .

Mathilda Mother é uma canção do primeiro álbum do Pink Floyd, The Piper at the Gates of Dawn, de 1967, de autoria de Syd Barret. Importante notar que este álbum foi gravado simultaneamente e no estúdio ao lado de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e que houve uma certa troca de informações entre as duas bandas. Isto talvez tenha levado os Beatles ao forte experimentalismo do Sgt. Peppers, e tenha servido para realçar para o Pink Floyd a importância das canções.

Pink Floyd – Mathilda Mother

Bodas é a primeira canção de Milagre dos Peixes ao vivo, que é aberto por Matança do Porco / Xá Mate, sendo a primeira também o nome de um álbum do Som Imaginário. A sonoridade dos instrumentos – teclado, guitarras, até a bateria – segue de perto a do Pink Floyd. Embora seja uma balada, existe uma violência no arranjo que acompanha a descrição sangrenta feita por Milton. Até mesmo a flauta de Nivaldo Ornelas (em outras faixas ele toca sax) encontra correspondência na tocada por Peter Gabriel no Genesis e Ian Anderson no Jethro Tull.

Bodas – Milton Nascimento

Milton diz:

Foi um lance muito interessante, porque eu nunca fui intimista, sempre fui muito aberto. Pelo contrário, eu estive e vivi muito perto do rock, da música pop, o tempo todo. O trabalho com o Som Imaginário para mim foi como se fosse um trabalho de cinema, de teatro… vestimos nossa música com uma roupagem elétrica. Foi uma época importantíssima, muito bonita…

É importante notar uma semelhança entre as duas canções, compartilhada por várias outras do repertório tanto progressivo quando do Clube da Esquina: as referências à realeza como artifício para a crítica política. Na Inglaterra, uma realeza até hoje, as letras remetiam a contos de fada e chegavam ao surrealismo, enquanto aqui elas utilizam referência históricas. Porém, manifestavam um inconformismo comum aos jovens ingleses dois anos antes da explosão do movimento punk (que, ironicamente, tomaria um caminho musical oposto ao do progressivo) e aos brasileiros sob uma ditadura. Se lá os contos de fadas falavam de uma realidade virada pelo avesso, aqui o poder do rei era exercido pelo governo autoritário – mas não só. A força das metáforas da letra de Ruy Guerra (e das de Barret, por tabela) pode ser avaliada por esta outra declaração de Milton:

É claro que as músicas tinham um teor político, mas não era nada explícito. Houve um exagero por parte da censura, porque nunca preguei que o pessoal pegasse em arma e coisa e tal; a gente só botava pra fora o nosso descontentamento com tudo, não só com o Brasil, mas com o mundo. (…) A própria EMI chegou a censurar internamente obras minhas. A música chamada “Bodas” tecia alguns comentários não muito elogiosos à rainha da Inglaterra, que por sinal ainda é a maior acionista da EMI. Aí eles acharam que não ia pegar bem; eles foram os censores, daí sempre tive que usar aquele negócio: “Quer? Não quer, me libera!”.

A transformação da palavra mata de substantivo em verbo pela voz de Milton – uma incitação de linchamento – pode ter mais afinidades que aparenta com as histórias lisérgicas do Pink Floyd, especialmente se levarmos em conta sua moldura instrumental. Como diz a letra de Mathilda Mother, as palavras têm diferentes significados. (…) Você só tem que ler as linhas. Elas estão rabiscadas em preto e tudo brilha.

Entreouvido no metrô

Este diálogo vem do blog Outras Considerações, escrito por Haroldo Mourão. É de julho deste ano, quando anunciaram que o Rush tocaria no Brasil – é neste fim de semana. Uma tomada de pulso de uma determinada galera, e ao mesmo tempo uma espécie de pesquisa qualitativa de como uma música de quarenta anos de idade chega num pessoal de menos de vinte. Os comentários entre parêntesis são do Haroldo. Nota: não sou de 72, e sim de novembro de 71. Mas acho que também tenho grandes chances.

Vagão do Metrô sentido Zona Sul quase lotado.

Ele – Alto, branco, magro, rosto cheio de espinhas. Camisa preta, calça jeans e tênis.

Ela – Um pouco mais baixa que ele, morena, magra, cabelos longos, rosto bonito. Camiseta, calça jeans e sandália.

Ambos com 17 pra 18 anos, por aí.

Ela – Não acredito que você não vai.

Ele – Tá muito caro.

Ela – Tô tentando convencer meu pai, mas ele só conhece “Tom Sawyer”. Ele não vai querer ir num show por causa de uma música.

Ele – Eu não vou pagar 500 reais pra ver Rush.

Ela – Nem do “Fly By Night” você gosta?

Ele – Não. Nem do primeiro, nem do “Moving Pictures”…nem do… sei lá…não gosto de nada deles. Acho brega.

Ela – Outro dia eu vi um vídeo sem noção deles. Tipo: Instrumentos brancos! Baixo, guitarra, bateria…piano branco! Ninguém merece.

Ele – Nunca vi.

(Nem eu.)

Ele – Mas era clip de qual música?

(Boa pergunta)

Ela – Não lembro.

(Boa resposta)

Ela – Você não gosta de Rush, mas gosta de Jethro Tull. Os clipes deles são muito mais bregas que os do Rush.

(Oi?)

Ele – Eu gosto da banda, não gosto dos clipes.

(Ah!)

Ela – O clipe de “She Said She Was a Dancer” é muito brega, mas tem umas paisagens maneiras.

(Onde é que ela quer chegar?)

Ele – Jethro Tull é bom ao vivo.

(Ok)

Ela – Você precisa ouvir “Waglhbluaf…”

(Incompreensível. Será que ela quis dizer Van Der Graf Generator?)

Ele – É prog?

(Se liga aí, mermão!)

Ela – É mais pra rock. Mas pra você que curte Grateful Dead , acho que é a sua cara.

(Fuckin’Dead Head dos infernos!)

Ele – Hmmm. Vou procurar. De que ano é essa banda?

Ela – Ah, 72, eu acho. Quando eu não sei de que ano é a banda ou a música, digo logo que é de 72. Tudo que foi feito em 72 tem grandes chances de ser coisa boa.

(Essa menina sabe das coisas.)

Ela – Fala a verdade, você não gosta mesmo do “Piper at the gates of dawn”do Pink Floyd ?

(Bitch.)

Ele – Não.

(Ih…Vai voltar pra casa sozinho! haha.)

Ela – Você prefere o “Atom Heart Mother”!! Tudo bem, tirando “if” que é um musicão…

Ele – E aquela que tem 23 minutos…musicão também!

(Não é hora de piadinhas, Mané!)

Ele – Tudo bem que ela poderia ter só 10 minutos e ainda seria um musicão.

Ela – Hahaha….

(Aê, garoto!)

Ela – Eu gosto do “Umagumma”. Quer dizer, só das instrumentais.

(Sei)

Ele – Posso falar uma coisa?

Ela – Pode.

Pausa.

(Vai !! Fala!!! Fala, porra!!)

Ele – O melhor disco do Pink Floyd é o Final Cut.

(WTF!!!)

Ela – Fala sério. Tá louco?

(Tá!)

Ele – Tô falando sério.

(Nerd)

Ela – Ainda bem que a gente só tá indo no cinema. Senão ia ter problema.

(…”E quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração”…Estação ArcoVerde. Fui!)