As grandes aventuras do homem comum

PrestençãoEste texto é sobre Pra onde que eu tava indo, quarto disco solo autoral de Maurício Pereira. Mas o penúltimo verso  de Música serve pra isso, canção que dá nome ao segundo álbum dos Mulheres Negras, impõe-se como a frase guia do artigo. Pouco importa se já usei esta mesma frase como título do artigo que escrevi sobre esta canção específica. Esta declaração de princípios se estende não apenas por este álbum, mas por toda a música de Maurício Pereira: Que uma banalidade gere uma canção gigante. Em cada canção dele, está de algum modo o embate entre o simples e o complexo e suas diversas resoluções. Maurício é um homem comum, com tudo de trivial que tem o homem comum, e tudo de extraordinário que tem cada homem comum, e sua música é o espelho disto.  Eu acho que sou o típico compositor brasileiro, viralata e refinado, não é assim que é? Principalmente letrista e melodista.

Como ele próprio aponta, o grande condutor das canções de Maurício é a letra. Isto não é exatamente novidade na canção brasileira, mas dá uma boa medida de diferenciação do processo de composição pós-bossa-nova, calcado na harmonia. Frequentemente suas letras são desenvolvidas a partir de uma rima, aparentemente sem tratar de um assunto específico, que vai se desdobrando de modo quase aleatório. Só neste álbum duas são baseadas na mesmíssima rima, a do verbo na condicional: Criancice e Nós três mais Maria Eunice. A impressão de nonsense absoluto e divertido da primeira escuta vai se desfazendo aos poucos, ao perceber, por exemplo, como Criancice se torna repentinamente uma canção de amor, um pouco ao modo de E se, parceria de Francis Hime e Chico Buarque. Um falso nonsense, como falsas magras têm mais carne que aparentam.

Ou uma espécie de voo de mosca, aparentemente desgovernado, mas com destino certo. Um flanar, tanto na linguagem quanto nas ruas de São Paulo. Maurício é um flaneur, personagem hoje em extinção. Se em canções como Trovoa ou no Modão de Pinheiros (É por isso que as pessoas mudam de bairro), de seus álbuns anteriores, os versos percorrem a cidade, seja lirica, seja comicamente, nas letras deste álbum eles também flanam, mas não tanto pela cidade (que continua sendo o seu cenário implícito), mas pelas rimas, ideias, linguagem, e o significado vai se construindo pelo percurso, como a direção se define não pelo destino final, mas pelos bairros por onde se passa, e tornando-se maior que as partes do percurso.

A voz de Maurício também contribui tanto para o aspecto viralata quanto para o refinado: se as letras de Maurício são um voo de mosca, sua voz, desempostada, metálica, é uma espécie de voo de besouro, que não se espera que consiga ir tão longe. Tão comum que é usada em locução de publicidade, justamente por permitir a identificação com o público em geral. A relação da voz de Maurício com o que ele canta merece uma atenção especial. Seu tom absolutamente coloquial, mesmo nas canções mais confessionais, inaugura um lirismo-rés-do-chão, permite uma aproximação com o ouvinte que é identificação, mas também simultaneamente a cumplicidade de uma piscada de olho de não me leve tão a sério. A possibilidade de explorar comicamente seu timbre foi explorada nos Mulheres Negras, mas em sua música solo permanece apenas como a sombra de uma dúvida: Maurício não se leva a sério demais, o que lhe permite irreverências, associações díspares. Mas sua voz, exatamente pelo timbre do homem comum, também tem algo de profundamente verdadeiro, e as letras que canta, aparentemente absurdas e frequentemente descrições de elucubrações que vagueiam ao léu, pegam carona em sua credibilidade e casam-se à perfeição com o aspecto de confissão íntima – e permanecem irreverentes, díspares, simultaneamente.

Como a faixa título, retrato instantâneo do que passa em sua cabeça por um segundo no aeroporto, descrição de uma pane mental, a exemplo do que fizera em outra faixa título, Mergulhar na surpresa. Pra onde que eu tava indo é um flanar não por um lugar, não pela linguagem, mas por possibilidades de vida. Justamente por ser um flanar, se permite alternativas impraticáveis como ser presidente ou astronauta, pois é exatamente na imaginação viajante que elas se realizam. Exatamente na linha fina entre o confessional (e eu carregando sonhos) e o delirante (vou tentar cuspe à distância), para enfim pousar suavemente (já sei, eu vou pra São Paulo) numa declaração de amor – ainda assim irônica – à cidade. Um equilibrismo que é também do arranjo com pegada roqueira para o que, na essência, é mesmo uma moda de viola, não por acaso parceria com o violeiro Chico Lobo.

Ou podemos falar de Fugitivos, ótima exatamente para tratar da dificuldade em classificar a música do Maurício, sua recusa em ficar numa prateleira só. Ou mais exatamente, a recusa das coisas em se deixarem classificar por autoridades de qualquer tipo, e a recusa a estas autoridades. A letra tem um tom próximo do infantil, com sua menção ao Senhor Capitão da cantiga Bão balalão e o coro de crianças no final – e é mesmo uma canção feita para os 15 anos do Projeto Guri. E talvez seja justamente sobre a capacidade da criança, como do artista, de ter uma visão de mundo sem catalogações. Senhor Capitão quer dar uma ordem pras coisas / Mas as coisas nunca tão a fim.  As autoridades cômicas que vão sendo citadas acabam sempre fugindo furtivamente, desmoralizadas tanto pela recusa das coisas na letra quanto pela forma da própria canção, pela falsa falta de sentido.

Mauricio declara em entrevistas sua vontade de fazer o simples. Gostaria de fazer músicas como Roberto Carlos, Zezé Di Camargo. E cada vez menos estou conseguindo isso, afirma na excelente entrevista que deu ao site Gafieiras, (de onde tirei e estendi o conceito de flaneur que lhe aplico), logo antes do lançamento de Pra Marte, o álbum anterior. Porra, o meu ídolo é o homem da rua! Por outro lado, Arte sem sagrado é punheta! E tanto quanto o repertório de sua autoria, a escolha minuciosa das canções alheias incluídas no álbum sejam o maior indicativo disto. Talvez em especial Medrosa, de história reveladora. Sua letra é de autoria de Stella do Patrocínio, interna do Hospital Psiquiátrico Colônia Juliano Moreira, musicada , entre várias outras, por Lincoln Antônio para um espetáculo inteiramente baseado na fala de Stella.

Maurício, portanto, traz para si e assume o discurso de uma louca. Só que não há nada de louco neste discurso, muito ao contrário. O que há é uma admissão corajosa de humanidade: Eu sou muito medrosa, cínica, covarde, sonsa, injusta, eu não sei fazer justiça (…) Tenho que enfrentar a violência e a grosseria, e ir à luta pelo pão de cada dia. Ou diria Guimarães Rosa, na voz de Riobaldo: O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Ao cantar a música de uma louca, Maurício vai ao extremo do homem comum, porque faz esta canção na primeira pessoa ser dele, toma-a para si humildemente – e efetivamente, a canção se integra tão harmoniosamente ao restante do repertório que um desavisado vai crê-la de autoria do próprio Maurício. Assim como a canção infantil que não é infantil, uma canção de louca que não tem nada de louca, e o conceito de homem comum não para de se expandir, ou se aproximar.

E a aproximação se torna enorme (de perto ninguém é normal) no discurso de Jorge Mautner, em Aeroplanos, pelo uso descarado de clichês, passando do limite do brega e do kitsch: Você / faz tantos planos / fica voando / em aeroplanos / da imaginação // porque não faz seu campo de pouso / no aeroporto do meu coração? Mas principalmente nas canções de abertura e encerramento do álbum, Notícia, de Nelson Cavaquinho, e Ciao, amore, ciao, de Luigi Tenco. São duas canções de extrema emotividade, dois dramas de fim de relacionamento. O primeiro, com a habitual melancolia de Nelson, e o segundo, de história terrível – foi a última canção de Luigi, que suicidou-se na noite seguinte a apresentar a canção pela primeira vez, no Festival de San Remo, e até hoje perdura o mistério do motivo. Maurício não nega a dramaticidade, mas a aproxima, a torna até certo ponto intimista no primeiro caso, e na segunda não hesita em mergulhar no refrão melodramático abrindo várias vozes, num coro de balançar mãos na platéia. Identificação total.

Sempre penso que há dois lados: não acho que é legal esse papel do artista endeusado num monte Olimpo, não está certo! Mas a música, toda a forma de arte, a obra de arte tem que expressar essa divindade, o sagrado, e não obrigatoriamente o artista. O artista tem que ser meio cavalo, que nem quando vai no terreiro, você faz o serviço e tchau. Até porque tem uma cisma de que uma sociedade podre é que precisa de artista. Porque se a sociedade for linda, legal, resolvida que nem o Paraíso antes da cobra, você não precisa do artista para ver a arte. O artista é uma muleta, e a arte que você paga para ter, você paga para ter uma visão do mundo, da beleza ou das questões, da inquietude. Deduz que essa arte é poluição. É como se eu dissesse: quando o mundo for perfeito não vai mais precisar de artista e tudo será obra de arte. Quando saio a pé da minha casa, para dar uma volta ali na Vila Ipojuca, um cocô de cachorro, um velhinho fazendo a barba, as pessoas atravessando a rua, isso é arte!! Mas quando o mundo for assim não será mais preciso a minha profissão; vou poder ter o meu boteco em Pindorama e tudo mais.

A divindade de um cocô de cachorro, um velhinho fazendo a barba, as pessoas atravessando a rua, é o que Maurício busca retratar, diz ele na já citada entrevista. Mas, ao buscar o simples, o faz pelo caminho mais complicado, como se fosse necessário antes ser complexo, para só então aprender a ser simples, não no caminho de ida, mas no de volta, com o reconhecimento de que Deus fez tudo num sopro só / como quem faz um único verso, últimos versos de Mautner em Aeroplanos. Maurício transita entre o Roberto Carlos que ele aspira ser e o James Joyce que, de forma tremendamente sofisticada, acompanha a vida comum de um Leopold Bloom por 24 horas e o compara a Ulisses, protagonista da maior epopéia. O ponto de partida de Maurício é o mesmo de sua chegada: falar de coisas cotidianas sem a pretensão de transcender – o que acaba tendo exatamente este efeito; falar do mais coloquial e da forma mais coloquial, daquilo que é também o mais alegre ou o mais triste – Não adianta tentar segurar o choro; o nonsense e a rima, o banal, o comum, o que poderia acontecer com todo mundo, e acontece.

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Imaginando o que o menino quis dizer

Maurício Pereira tem um grande talento para resumir suas canções em uma ou duas palavras. Para ele, Imbarueri, feita para os Mulheres Negras (a segunda menor big band do mundo, composta por ele e André Abujamra), é um sonho. Um dia útil, uma noite de insônia. E Mergulhar na surpresa, canção título do seu álbum de 1998, uma foto.

Discordo. Não é foto, mas é realmente cinematográfica. Um curta metragem de alguns segundos, ou três minutos, que é a sua duração, ou dez, como indicado na letra. Ou talvez realmente uma foto, porque nestes dez minutos muito pouca coisa acontece, externamente ao menos. Antes que uma foto, Mergulhar na surpresa é um momento de suspensão do tempo, um curta-metragem de um aftershock, dos segundos imediatamente após o impacto, em câmera lentíssima.

Mergulhar na surpresa é uma canção inteiramente construída como preparação para a revelação de uma única frase. Mas o pulo do gato desta canção está no que ela não diz, ao passar mais da metade de sua curta letra descrevendo o redor em seus mínimos movimentos, em contraste implícito com o que ocorre no pensamento do eu lírico, que só surge no quinto verso. Enquanto isso, tudo o mais na composição descreve este pensamento que gira em torno de si mesmo, ou em torno, melhor dizendo, de uma frase desconcertante e desabridora de mundos.

A começar pelo arranjo de piano de Daniel Szafran, fundado em um motivo de apenas duas notas, ideia fixa que atravessa se adaptando suavemente às sutis mudanças harmônicas – que no entanto demoram a vir, e o acorde da tônica se repete por cinco compassos seguidos a cada vez que soa, sobrando apenas quatro compassos de um estranho ciclo de nove (mas que soa absolutamente natural) para o desenrolar dos apenas cinco acordes da harmonia.

À ideia fixa do motivo do piano, Maurício contrapõe uma melodia igualmente monotemática, mas com uma delicadeza particular, por ter quase a aparência de improvisada. A frase descendente enunciada no primeiro verso se repete com variações em todas as seguintes, ora iniciando-se terça acima, ora desdobrando-se em ornamentações, ora terminando-se ascendente, mas mantendo o mesmo desenho e conduzindo o ouvinte por um território que se anuncia familiar pela repetição, como também pela entonação coloquial de Maurício, que no entanto cuida de manter o interesse pela melodia, tanto quanto suas variações.

Mas no tema repetido pelo piano, assim como no violoncelo que vai se insinuando aos poucos e ganhando volume e intensidade, há também o suspense implícito de algo a ser anunciado. Um pensamento que vai revolvendo na cabeça e que é ao mesmo tempo enunciado e não enunciado ao longo da canção. Não enunciado em toda a letra, que se detém numa descrição fragmentada exterior, uma sucessão de enquadramentos cinematográficos (enquadrados pelas longas pausas entre os versos), como que fugindo da frase final que provocou a contemplação, ou procurando na paisagem a significação, o sentido para ela, que no entanto ainda não foi explicitada para o ouvinte. Mas sim, foi dita, pela melodia que se repete, pelo piano que a repete sem pronunciá-la.

Voltamos então ao pulo do gato. Que consiste em tratar minuciosamente de uma frase, extrair dela tudo que ela pode dar, mas antes de revelá-la e sem cometer o pecado que a estragaria – tentar explicá-la. Mauricio desdobra a frase que ouviu do menino sem aventar uma só hipótese. Sua canção nem é sobre a frase, mas sobre o que a frase causou nele. Sobre o efeito do raio paralisante que fez o mundo andar em câmera lenta, enquanto seu pensamento voava alto como os superjumbos que passavam, sobre a capacidade infantil de olhar o mundo como se fosse pela primeira vez – exatamente o que ele tenta fazer pelos dez minutos seguintes – tentativa que é a própria canção.

Mergulhar na surpresa consiste num exercício de minimalismo na canção e se apoia inteiramente na sua dicotomia básica constituinte, letra/música, brincando de esconder e mostrar com ela. O que ela esconde é seu mote principal, escondido pela letra para ser revelado no fim, e dito com todas as letras e sem nenhuma palavra pela melodia – pois toda a melodia e arranjo da canção são exatamente um mergulho na surpresa. O jogo de omissões e revelações que a estrutura é a própria representação do que ela canta, a capacidade de maravilhar-se, a contemplação do mistério, o destemor pelo desconhecido, a frase-título que Maurício passou três minutos a sublinhar tendo a sensibilidade de não tentar desvendar, limitando-se a compartilhar conosco seu fascínio. O que foi mais do que o suficiente.

Um cachorro parou na porta. Latiu.
O biscoito que eu tinha nas mãos, quebrado.
O pé de serra, a borda da mata. Lua cheia.
Quatro superjumbos cruzam o céu no espaço de dez minutos, piscando.
Na verdade ainda estou parado na porta
Com um biscoito quebrado nas mãos, imaginando.
Imaginando o que o menino quis dizer com
Mergulhar na surpresa.

Que uma banalidade gere uma canção gigante

Se eu pudesse estabelecer um, e apenas um, objetivo para a arte, talvez fosse o de fazer vislumbrar o transcendente que se esconde no banal. Isso pode ser feito de forma a enxergar o banal como algo transcendente em si, e isto é visto, em geral, como a arte séria; ou, por outro caminho – e este é uma dos fios finos em que a arte se equilibra -, pode ser feito de forma que se continue a enxergar a banalidade que gerou o transcendente, num contraste que frequentemente é ridículo e simultaneamente sublime. De certa forma, e entre muitas outras coisas, é disso que fala esta canção.

Música serve pra isso

Definir a música dos Mulheres Negros é tarefa hercúlea, para usar um clichê à altura dos que eles sempre empilharam em seus trabalhos. Os Mulheres Negras são precursores de uma visão da música brasileira produzida atualmente que prima por não recusar nada, nem o brega, nem o sertanejo, nem o rock, nem a música erudita contemporânea e experimental, e sim aceitar todas estas influências carinhosamente como dados de realidade, reprocessando-as com referências e processos muito mais complexos, sem necessariamente descaracterizá-las ou desvalorizá-las, mas chegando a um resultado que, sem deixar de revelar suas fontes, é outra coisa também, obra acabada que não tem vergonha de dizer de onde veio – todos os lugares. Descaradamente, Maurício Pereira dizia ao Jô Soares numa entrevista em 1988:

A gente aplica a ciência à música pop do terceiro mundo. Quando eu estou falando música pop, é música comercial. A gente não tem vergonha de mexer com comércio. Música pop são notas musicais mais a grana de parada de sucesso. Então a gente é cientista disso, de música descartável. A gente usa muito clichê, muita frase feita, muito lixo musical, as gente usa e às vezes dá muito bom resultado.

E no documentário feito sobre sua carreira (abaixo, o trailer), Maurício, mais a sério, vai na contramão da afirmação de que só há dois tipos de música, a boa e a ruim, e resume:

Profissão de fé dos Mulheres Negras: tudo é música boa. E tudo é influência. Ponto final.

Esta diferença de postura é fundamental. Se a afirmação de dois tipos de música (já a vi atribuída a Miles Davis, Duke Ellington etc.) soa sem preconceitos por não dispensar nenhum estilo, por outro lado dispensa, sim, muita coisa, ao classificar. E é claro que, em algum nível, a classificação é necessária. Mas será necessária em que ponto do processo, na produção, na escuta, onde? Maurício e André, aparentemente, recusam esta classificação no momento da realização da música. Agora, não se trata de uma aceitação cega, e sim de uma escuta ao mesmo tempo afetuosa e que não leva muito a sério – uma coisa permitindo a outra. Esta postura é que permite que estejam lado a lado e com naturalidade rap e Villa-Lobos, sem que o discurso subjacente seja “estou juntando rap e Villa-Lobos, olha que legal”. Este descompromisso com a seriedade enquanto se faz uma música que não deixa de ser muito detalhada é uma chave para entender os Mulheres Negras.

Mas o objetivo deles é fazer música pop (e quem sabe algum dia ficar rico e xarope, completam). Para isso, lidam com a pasteurização da indústria pop como mais um elemento do que fazem, a ser dosado segundo seus interesses. Juntar elementos absolutamente díspares mantendo a simplicidade (conseguida com muito trabalho duro, como eles também explicam), e trabalhar para impedir que esta pasteurização seja também diluidora, mas permita que os elementos se acomodem sobre um patamar comum que permita à canção ser reconhecível como tal. Lidam assim com o estranho, o inesperado, o absurdo, mas em um campo absolutamente conhecido, virando-o do avesso, subvertendo-o, mas ainda assim valendo-se dele na comunicação, como também do humor, canal direto com o público. Levam seu trabalho muito a sério, pois afinal, é o seu trabalho. Mas não o levam a sério, afinal, é música pop! E vice-versa.

E se, ao lado da profissão de fé já explicitada pelo Maurício, há alguma canção que sirva pra isso, é Música serve pra isso. A letra trata… da tecnologia solucionando os desencontros amorosos? Dos sentimentos verdadeiros sobrepondo-se à tecnologia que os pode desvirtuar ou confundir? – e vai ao limite do cinismo, equilibrando-se numa linha muito fina. É impossível levá-la inteiramente a sério, como também impossível encará-la unicamente como sarcasmo. Tudo aponta nas duas direções, e aí está a sintética ourivessaria dos Mulheres.

O arranjo vai pelo mesmo meio de caminho, coalhado de referências díspares. A abertura, com baixo e bateria desavergonhadamente eletrônicos, acontece com uma batida de prato espalhafatosa e de timbre totalmente artificial, abrindo espaço para a voz do Maurício que entra logo depois. Mas a artificialidade do arranjo lembra uma máquina de karaokê (que já existia na época do disco), e aí as referências se sobrepõem, pois à frieza instrumental se soma o derramado da canção brega ou romântica dos karaokês, e a esta a referência sentimental logo na primeira estrofe. A guitarra dedilhada de André entra no meio do caminho para completar a harmonia (na segunda vez, voltará dobrada com teclados reforçando o caráter sentimentalóide), ao lado de imagens de poética duvidosa como Que o fogo de um vulcão / Cuspa uma explicação e uma melodia bem desenhada que, não fosse a voz seca de Maurício, contrastando com as segundas dramáticas de André, poderia ser isoladamente imaginada na voz de um Waldick Soriano.

mas aí chega o refrão, coração da música pop, declaração de princípios, profissão de fé, vertiginoso ao radicalizar a mistura de elementos. A guitarra de Abujamra, cheia de distorção, traz um peso repentino com uma referência de rock que é risível sobreposta a teclados que lembram fundo musical de parque de diversões, mas cuja linha descendente no final é um clichê de música sertaneja. E surpreendentemente, a soma dos risíveis se torna grandiosa, empolga como a música pop sabe fazer melhor que nenhuma outra, e a única e não conclusiva frase/título torna-se, sim, conclusiva: Música serve para isso, e isso é exatamente o que ela está fazendo agora. E o elemento mais responsável por este arrebatamento do refrão que se auto-alimenta é exatamente a breguice dos timbres eletrônicos, a referência ao karaokê e o carrossel de beira de estrada, que ultrapassam por um momento o cinismo para, inesperadamente, comover. A banalidade gerou a canção gigante, a música descartável se torna perene, a feita para grudar no ouvido se torna, de fato, inesquecível.

Maurício Pereira e André Abujamra, depois da separação do grupo em 1991, seguiram carreiras profícuas em grupos como o Karnak ou solo, em que mostraram as características particulares de sua música. Porém, ao se reunirem novamente há alguns anos, ficou claro que a terceira menor big band do mundo tem também características próprias que são resultado não de um ou de outro, mas do encontro dos dois, como uma entidade independente que se mostra e tem um som próprio. Sua música também é assim. Sertanejo, rock, experimental, mesmo o pop, nenhum destes elementos chegam a dominar as canções dos Mulheres. Tampouco anulam-se mutuamente, mas se somam transformando-se em um produto final que é outra coisa sem que por isso deixe de ser as cada uma das suas fontes. Porque, segundo eles, toda música é boa. Portanto, toda música serve. Música serve para servir para isso.

Música serve pra isso – uma história dos Mulheres Negras – Trailer

Brinde: Os Mulheres Negras no Reverbnation – dá para ouvir os dois álbuns inteiros, de 1988 e 1990, e mais a Fita Pirata Oficial, de 1987

Fulano de Tal – Vida e Obra

Em 1988, Cazuza voltou ao Brasil, depois de um curto período nos EUA, e lançou o álbum Ideologia. Nele havia a canção Boas Novas, que dizia:

Senhoras e senhores, trago boas novas
Eu vi a cara da morte, e ela estava viva!

No entanto, Cazuza oficialmente estava apenas recuperando-se de uma pneumonia que se complicara um pouco. Ele só admitiria publicamente ser portador do HIV no ano seguinte. Isto não o impediu, neste trabalho como eu todos os anteriores e posteriores, de colocar abertamente sua vida particular tanto em suas composições como na escolha de repertório alheio, como ao cantar Luz Negra, de Nelson Cavaquinho, a ponto de a revista Veja tê-lo colocado na capa – uma foto de quando pesava 40 quilos – com a manchete Uma vítima da Aids agoniza em praça pública, que causou enorme repercussão.

Cazuza foi um exemplo, como Michael Jackson no artigo abaixo, de artistas que são pratos cheios para exegetas, por colocarem – ou parecerem colocar, em certos casos – suas experiências reais, vividas, em sua obra. Isto dá ao seu trabalho artístico um sabor especial que vai bem além do valor estético: a sensação de penetrar na sua intimidade, pois suas canções são também, de certa forma, confissões. Mas para isto, em tese, é necessário que suas vidas sejam muito interessantes, é claro. Ou que sejam tornadas muito interessantes, e temos diversos exemplos de artistas que, independente do mérito de suas obras, sabem como ninguém utilizar a mídia a seu favor “criando” fatos pessoais para a promoção de sua arte. Mas o que dizer de uma vida absolutamente comum? Será capaz de suscitar uma boa canção?

Um Dia Útil, com Maurício Pereira:

Por outro lado, há uma espécie de senso (ou lugar?) comum de que a arte consiste na “expressão de sentimentos e emoções”. É óbvio que o artista, para criar, usa a si mesmo como matéria prima – seus conhecimentos, experiência, vivências (um amigo meu não pode ouvir ninguém dizer “Na minha opinião…” sem interromper: “Claro que é a sua, de quem mais?). Daí a considerar que obrigatoriamente as vivências relatadas são dele… Chico Buarque, célebre, entre outras coisas, por suas canções sob o ponto de vista feminino, que o diga.

O Meu Amor, com Chico Buarque:

Noel Rosa compôs Três Apitos para uma namorada chamada Josefina, que começara a trabalhar numa fábrica de botões no Andaraí. Noel foi procurá-la em seu carro velho, pensou que trabalhava em outra fábrica próxima, de tecidos.  A história desta confusão pode ser lida neste ótimo artigo.

Noel Rosa, em Três Apitos, fez uma descrição precisa das transformações profundas por que passavam o Rio de Janeiro e o Brasil na década de 30: a rápida industrialização da zona norte, as condições precárias do proletariado (“você no inverno/ sem meias vai para o trabalho”), a proliferação do automóvel, a popularização da publicidade (“quando a fábrica apita/ faz reclame de você”), enfim, uma nova cidade que se punha de pé. Esta análise econômico-social pode ser lida neste ótimo artigo.

Três Apitos é uma obra-prima porque, aliada à sua sensacional qualidade técnica e expressiva (colocando a palavra “grito” na nota mais aguda da música, por exemplo), traz algo do que o artista Noel Rosa era e do que ele via. Traz suas vivências transfiguradas, sua visão de mundo estilizada, e se torna bem maior que ambas. Se é verdade que sempre há uma parcela do público que quer o sangue do artista, cabe a ele realizar o milagre cotidiano da transformação deste sangue em vinho para oferecê-lo ao público. Sua vida não precisa ser espetacular para que sua obra o seja. Seu sangue não durará; o vinho, se tiver qualidade, ficará mais saboroso ao envelhecer, e sobreviverá a ele.

Três Apitos, de Noel Rosa, com Tom Jobim: