Que uma banalidade gere uma canção gigante

Se eu pudesse estabelecer um, e apenas um, objetivo para a arte, talvez fosse o de fazer vislumbrar o transcendente que se esconde no banal. Isso pode ser feito de forma a enxergar o banal como algo transcendente em si, e isto é visto, em geral, como a arte séria; ou, por outro caminho – e este é uma dos fios finos em que a arte se equilibra -, pode ser feito de forma que se continue a enxergar a banalidade que gerou o transcendente, num contraste que frequentemente é ridículo e simultaneamente sublime. De certa forma, e entre muitas outras coisas, é disso que fala esta canção.

Música serve pra isso

Definir a música dos Mulheres Negros é tarefa hercúlea, para usar um clichê à altura dos que eles sempre empilharam em seus trabalhos. Os Mulheres Negras são precursores de uma visão da música brasileira produzida atualmente que prima por não recusar nada, nem o brega, nem o sertanejo, nem o rock, nem a música erudita contemporânea e experimental, e sim aceitar todas estas influências carinhosamente como dados de realidade, reprocessando-as com referências e processos muito mais complexos, sem necessariamente descaracterizá-las ou desvalorizá-las, mas chegando a um resultado que, sem deixar de revelar suas fontes, é outra coisa também, obra acabada que não tem vergonha de dizer de onde veio – todos os lugares. Descaradamente, Maurício Pereira dizia ao Jô Soares numa entrevista em 1988:

A gente aplica a ciência à música pop do terceiro mundo. Quando eu estou falando música pop, é música comercial. A gente não tem vergonha de mexer com comércio. Música pop são notas musicais mais a grana de parada de sucesso. Então a gente é cientista disso, de música descartável. A gente usa muito clichê, muita frase feita, muito lixo musical, as gente usa e às vezes dá muito bom resultado.

E no documentário feito sobre sua carreira (abaixo, o trailer), Maurício, mais a sério, vai na contramão da afirmação de que só há dois tipos de música, a boa e a ruim, e resume:

Profissão de fé dos Mulheres Negras: tudo é música boa. E tudo é influência. Ponto final.

Esta diferença de postura é fundamental. Se a afirmação de dois tipos de música (já a vi atribuída a Miles Davis, Duke Ellington etc.) soa sem preconceitos por não dispensar nenhum estilo, por outro lado dispensa, sim, muita coisa, ao classificar. E é claro que, em algum nível, a classificação é necessária. Mas será necessária em que ponto do processo, na produção, na escuta, onde? Maurício e André, aparentemente, recusam esta classificação no momento da realização da música. Agora, não se trata de uma aceitação cega, e sim de uma escuta ao mesmo tempo afetuosa e que não leva muito a sério – uma coisa permitindo a outra. Esta postura é que permite que estejam lado a lado e com naturalidade rap e Villa-Lobos, sem que o discurso subjacente seja “estou juntando rap e Villa-Lobos, olha que legal”. Este descompromisso com a seriedade enquanto se faz uma música que não deixa de ser muito detalhada é uma chave para entender os Mulheres Negras.

Mas o objetivo deles é fazer música pop (e quem sabe algum dia ficar rico e xarope, completam). Para isso, lidam com a pasteurização da indústria pop como mais um elemento do que fazem, a ser dosado segundo seus interesses. Juntar elementos absolutamente díspares mantendo a simplicidade (conseguida com muito trabalho duro, como eles também explicam), e trabalhar para impedir que esta pasteurização seja também diluidora, mas permita que os elementos se acomodem sobre um patamar comum que permita à canção ser reconhecível como tal. Lidam assim com o estranho, o inesperado, o absurdo, mas em um campo absolutamente conhecido, virando-o do avesso, subvertendo-o, mas ainda assim valendo-se dele na comunicação, como também do humor, canal direto com o público. Levam seu trabalho muito a sério, pois afinal, é o seu trabalho. Mas não o levam a sério, afinal, é música pop! E vice-versa.

E se, ao lado da profissão de fé já explicitada pelo Maurício, há alguma canção que sirva pra isso, é Música serve pra isso. A letra trata… da tecnologia solucionando os desencontros amorosos? Dos sentimentos verdadeiros sobrepondo-se à tecnologia que os pode desvirtuar ou confundir? – e vai ao limite do cinismo, equilibrando-se numa linha muito fina. É impossível levá-la inteiramente a sério, como também impossível encará-la unicamente como sarcasmo. Tudo aponta nas duas direções, e aí está a sintética ourivessaria dos Mulheres.

O arranjo vai pelo mesmo meio de caminho, coalhado de referências díspares. A abertura, com baixo e bateria desavergonhadamente eletrônicos, acontece com uma batida de prato espalhafatosa e de timbre totalmente artificial, abrindo espaço para a voz do Maurício que entra logo depois. Mas a artificialidade do arranjo lembra uma máquina de karaokê (que já existia na época do disco), e aí as referências se sobrepõem, pois à frieza instrumental se soma o derramado da canção brega ou romântica dos karaokês, e a esta a referência sentimental logo na primeira estrofe. A guitarra dedilhada de André entra no meio do caminho para completar a harmonia (na segunda vez, voltará dobrada com teclados reforçando o caráter sentimentalóide), ao lado de imagens de poética duvidosa como Que o fogo de um vulcão / Cuspa uma explicação e uma melodia bem desenhada que, não fosse a voz seca de Maurício, contrastando com as segundas dramáticas de André, poderia ser isoladamente imaginada na voz de um Waldick Soriano.

mas aí chega o refrão, coração da música pop, declaração de princípios, profissão de fé, vertiginoso ao radicalizar a mistura de elementos. A guitarra de Abujamra, cheia de distorção, traz um peso repentino com uma referência de rock que é risível sobreposta a teclados que lembram fundo musical de parque de diversões, mas cuja linha descendente no final é um clichê de música sertaneja. E surpreendentemente, a soma dos risíveis se torna grandiosa, empolga como a música pop sabe fazer melhor que nenhuma outra, e a única e não conclusiva frase/título torna-se, sim, conclusiva: Música serve para isso, e isso é exatamente o que ela está fazendo agora. E o elemento mais responsável por este arrebatamento do refrão que se auto-alimenta é exatamente a breguice dos timbres eletrônicos, a referência ao karaokê e o carrossel de beira de estrada, que ultrapassam por um momento o cinismo para, inesperadamente, comover. A banalidade gerou a canção gigante, a música descartável se torna perene, a feita para grudar no ouvido se torna, de fato, inesquecível.

Maurício Pereira e André Abujamra, depois da separação do grupo em 1991, seguiram carreiras profícuas em grupos como o Karnak ou solo, em que mostraram as características particulares de sua música. Porém, ao se reunirem novamente há alguns anos, ficou claro que a terceira menor big band do mundo tem também características próprias que são resultado não de um ou de outro, mas do encontro dos dois, como uma entidade independente que se mostra e tem um som próprio. Sua música também é assim. Sertanejo, rock, experimental, mesmo o pop, nenhum destes elementos chegam a dominar as canções dos Mulheres. Tampouco anulam-se mutuamente, mas se somam transformando-se em um produto final que é outra coisa sem que por isso deixe de ser as cada uma das suas fontes. Porque, segundo eles, toda música é boa. Portanto, toda música serve. Música serve para servir para isso.

Música serve pra isso – uma história dos Mulheres Negras – Trailer

Brinde: Os Mulheres Negras no Reverbnation – dá para ouvir os dois álbuns inteiros, de 1988 e 1990, e mais a Fita Pirata Oficial, de 1987

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2 comentários em “Que uma banalidade gere uma canção gigante

  1. Gosto muito do trabalho do Abujamra, um dos seres mais criativos na arte e música brasileira. Bem legal conhecer Os Mulheres Negras e este blog divulgando com brilhantismo trabalhos maneiríssimos!! Vou repassar um texto seu para meus alunos, sobre o filme Bye bye Brasil! Grata e parabéns! Já está nos favoritos!

    • Olá, Daliana. O André é uma usina musical, o trabalho dele na época do grupo Karnak também era impressionante. E recomendo ainda mais procurar a carreira solo do Maurício Pereira, um compositor refinado. Esteja à vontade para usar artigos do blog como lhe aprouver, e se puder depois dizer como é que foi, melhor ainda. Grande abraço.

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