Discoteca Brasílica – Brasil, Aquarela do

Em 1981, João Gilberto gravou uma aula de Brasil, e, de quebra, de como ser João Gilberto. Na classe, dois alunos: Caetano Veloso e Gilberto Gil – com uma participação de Maria Bethania. O álbum Brasil, com apenas seis faixas em menos de meia hora, é uma síntese musical que ultrapassa a Bossa Nova e se configura como um projeto estético – e utópico – de país. E esta síntese pode ser sintetizada por sua vez na primeira faixa, a gravação de Aquarela do Brasil, de Ary Barroso.

Brasil é uma síntese desde sua escolha de repertório: dois Arys, um Dorival, um ponto de Umbanda (Cordeiro de Nanã), um samba de exaltação à Bahia como que concentrando o Brasil nela, e… uma versão, grande ironia da escolha, a deliciosa Disse Alguém (no original, All of me, de Seymour Simons e Gerald Marks – em português, de Haroldo Barbosa). Cada uma delas poderia ser alvo de uma análise particular. Mas não há dúvida que a canção de abertura tem um valor simbólico especial.

Quase tudo já foi dito sobre Aquarela do Brasil, com críticas a desde a tautologia do coqueiro que dá coco até a estetização de um Brasil para consumo estrangeiro, na onda de política estadunidense de boa vizinhança, que de resto vinha a calhar com a propaganda interna do governo de Getulio Vargas. De fato, assistir ao trecho do desenho Alô, Amigos, de Walt Disney, com a canção sendo ilustrada por todas as maravilhas tropicais possíveis (pintadas em uma vertiginosa aquarela, claro) é algo irreal. O tom da interpretação de Aloysio de Oliveira, ao lado da orquestração que se tornou a marca registrada da música, é grandiloquente, laudatório, um Brasil para consumo externo, pra inglês ver, na inauguração do modelo que se convencionou chamar de samba-exaltação.

Aquarela do Brasil – do filme Alô, Amigos, de 1942, com Aluísio de Oliveira (na sequência, Tico-tico no Fubá, de Zequinha de Abreu).

Pois João Gilberto, quase 40 anos depois, escolheu o caminho oposto. Como, aliás, fez por toda a sua vida, a partir do momento em que forjou seu canto intimista. Sua interpretação da Aquarela, e a de Caetano e Gil seguindo-o, ao invés de exaltar sua terra, a canta com quase o carinho de uma canção de ninar, no espírito do poema Pátria Minha, de Vinícius de Morais:

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Porém, a Aquarela de João não é uma canção do exílio, como também não é a celebração de um país de ficção, e sim a canção de um Brasil que, se não existente na realidade objetiva dos noticiários, é real como uma possibilidade de projeto de existência, como uma busca. Nas palavras do economista Eduardo Giannetti, “A utopia do canto joão-gilbertiano descortina a trilha de um Brasil redimido não perante o mundo (isto é decorrência), mas perante si mesmo.” Ele não se referia a esta gravação especificamente, mas sua frase se aplica esplendidamente a ela.

João aplica no álbum Brasil uma técnica pedagógica: depois da apresentação do tema, geralmente a primeira parte, dos três em uníssono, cada um canta a parte intermediária sozinho, João primeiro. É quando se configura uma aula em sentido literal, e é evidente ao ouvido o esforço que Caetano e Gil – este com melhores resultados – fazem para controlar a emissão e a divisão das frases da maneira limpa como João acabara de fazer, eliminando toda e qualquer “interpretação”, toda pompa, conseguindo com isso maior eloquência pela eliminação do que é assessório e manutenção do essencial da melodia, da letra, do rítmo. O álbum Brasil é ao mesmo tempo uma passagem de bastão tardia entre duas gerações de baianos, e uma expressão de nacionalidade que é central na obra de João Gilberto e que se irradiou para as dos outros dois, joãogilbertianos assumidos.

Outra vez em contraste com as cordas e sopros expressivos e com forte ênfase rítmica do arranjo tradicional da Aquarela, este, do americano Johnny Mandel, prima pela sutileza – diferentemente dos de Clare Fischer que anos depois faria arranjos mirabolantes para o álbum João, excessivamente movimentados e que quase desviam a atenção do ouvinte, ao invés de funcionar como uma moldura que ressalte as cores da interpretação -talvez por isso, no álbum seguinte, João preferiu apenas a voz e o violão – com Camila Pitanga pedindo silêncio na capa. Mas neste, as cordas, o piano, as flautas e os dedilhados de harpa vão surgindo aos poucos, assim como a percussão vem num crescendo ao longo de toda a faixa, até no final tomarem a frente enquanto as cordas se perdem na distância.

A pintura de Portinari que usei para ilustrar este artigo tem uma característica dupla que me encanta: ela traz, em seu colorido e seus clichês de arara e banana, um Brasil que sei bem ser estereotipado, e a mesmo tempo um Brasil que aprendi a reconhecer e pelo qual não deixo de sentir um certo carinho; mas um detalhe ameaça passar despercebido no quadro: o ponto de vista expresso nele não é o do estrangeiro, mas está no meio da floresta, contemplando a praia de onde vem o estrangeiro. Não posso imaginar melhor tradução para o que João Gilberto fez com a Aquarela do Brasil, preservando seu exotismo e ao memo tempo se apropriando dela para si, afirmando ser possível o sonho de uma terra perdida de felicidade que guiou exploradores e navegadores por séculos. E lembro de Vladimir Mayakovsky: “Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz.”

Aquarela do Brasil – com João, Caetano e Gil – do álbum Brasil

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4 comentários em “Discoteca Brasílica – Brasil, Aquarela do

  1. […] This post was mentioned on Twitter by João Gilberto, Túlio Villaça. Túlio Villaça said: Discoteca básica – Brasil (Aquarela do): http://wp.me/pVVzd-lw […]

  2. Excelente Tulio, voy a disfrutar este blog. Gracias!

  3. vandejer disse:

    Túlio, muito obrigado por este artigo. Você sintetizou de forma especial o que eu sempre senti ao ouvir este disco e, de alguma forma, todos os discos do João. (Cheguei mesmo a ouvir Brasil por dias, over and over again). Foi com Caetano que aprendi a ser brasileiro. E foi com João Gilberto e Antônio Brasileiro Jobim, que aprendi a enxergar a mais bela utopia presente no âmago deste país. Somos decepção e esperança, mas que enigma poderoso é esta nossa nação para o mundo…Obrigado pelo artigo mais uma vez…

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