Neil Young, Steve Jobs e música para ouvir – por Pedro Dória

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O jornalista Pedro Dória não é especializado em música, mas trata de tecnologia no Globo. Isso é ótimo, porque permite que sua explicação seja objetiva ao tratar da matemática que leva a resultados diferentes do som em LP, CD e no formato digital. Mas no final, graças a Neil Young, que motivou o texto, ele abre uma porta para outras considerações – e aí me permito continuar um pouquinho. Eis:

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A notícia estava no site do Globo e em tudo quanto é canto da internet: em casa, Steve Jobs ouvia LPs. Vinil, mesmo. A informação foi passada por Neil Young, um dos grandes músicos da história do rock. A turma do Twitter, claro, adorou: LPs, segundo Jobs teria dito a Young, têm mais qualidade do que a música num iPod. Trending topics mundial. E, em meio à curiosidade geral, a sofisticada análise de Young a respeito do estado da música se perdeu.

A música num LP é infinitamente superior àquela ouvida nos iPods. Não há nada de polêmico na afirmação. É matemática. Também não vai, aí, qualquer julgamento a respeito da discussão entre reprodução digital ou analógica de música. A música num CD também é infinitamente superior àquela ouvida nos iPods. Novamente: é matemática. Uma música de três minutos em CD tem algo entre 30 e 40 Mb. A mesma música convertida para os formatos MP3 ou AAC, padrões mais populares em iPods, tem menos de 3 Mb. Isso mesmo: o disco baixado da loja iTunes, da Apple, tem muito menos qualidade do que o CD comprado na esquina. Para comprimir, muita informação foi jogada fora.

O som é formado por ondas que fazem o tímpano vibrar e são traduzidas pelo cérebro naquilo que ouvimos. O desenho destas ondas é reproduzido nos sulcos do vinil. Um bom vinil carrega a representação perfeita do que foi gravado. É por isso que muita gente defende o analógico. Quem tem memória daqueles tempos ainda nos anos 80, porém, sabe que nada é tão simples. Para que o som seja perfeito, o disco não pode estar empenado, não pode haver grão de poeira, a agulha tem que ser de diamante novo. É para quem pode, não para quem quer. Dá trabalho e custa caro. E o disco perde qualidade com o tempo.

Som digital é diferente. O equipamento faz um retrato daquela onda sinuosa de tempos em tempos e o registra em número. Se fosse um desenho, ao invés de uma linha contínua da curva veríamos inúmeros pontinhos, um seguido do outro, na forma da mesma curva. Quanto menor os intervalo entre cada registro, mais parecido o resultado final. A olho nu, nem se percebe a diferença. Ou a ouvido nu.

O ouvido humano mais afiado não ouve nada abaixo de 20Hz (é um baixo bem surdo) ou acima de 20.000 Hz (e põe agudo nisso). Para segurar o tamanho da música, o padrão de CD corta todos os sons abaixo e acima desta faixa. A turma purista sugere que, embora não ouçamos estas faixas, nosso cérebro as percebe de outra forma. A perda desta informação afetaria os mais sensíveis. Além disso, CDs também economizam na informação dos extremos. Quanto mais próximo de 20Hz ou de 20.000Hz o som, menos dele é registrado. É porque, como ouvimos pior nessas frequências, menos delas seriam necessárias para causar o efeito.

Música digital no computador, MP3 e similares, joga fora 90% da informação no CD. Para enganar nossos ouvidos é necessário um sistema bem complexo. Ele quebra cada trecho de áudio e descobre como economizar. Corta ainda mais nas faixas que ouvimos menos, se há um agudo numa frequência seguido de outro agudo numa frequência bem parecida, junta os dois, e segue neste processo fazendo economias e cortes e junções. O resultado é um iPod com dez mil músicas e ninguém percebe a diferença em música bate estaca. Mas, aí, o trompete de Dizzy Gillespie tem um quê menos de brilho e o ouvido do maestro mal reconhece Mozart. Quanto mais complexa a música, maior a perda.

É evidente que o leitor precisaria ter um ouvido um tanto melhor do que o meu para perceber tudo isso. Mas a matemática não mente: a informação foi embora.

O som do LP nas condições ideais não precisa ser melhor do que o digital. Num disco Blu-ray cabe uma quantidade infinitamente maior de informação do que num CD. Nada precisaria ser jogado fora e o equipamento para reproduzir música já começa a entrar na casa das famílias de classe média.

E aí está a proposta de Neil Young. O MP3 pirata, ele sugere, é o novo rádio. A música não tem a mesma qualidade daquela que o ouvinte compra na loja, mas serve para divulgar, para que as pessoas conheçam o que há de novo. O que falta é existir, nas lojas, uma opção muito superior. Algo para além do CD, com qualidade total de música.

Se existisse, bastaria ao ouvinte sentar-se no sofá, imerso nas 5.1 caixas do home theater, e se perder. Dizzy merece.
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Este final de texto, com a declaração curta de Neil Young (MP3 pirata é o novo rádio), mostra que o velho Young continua mais jovem que muita gente, e me parece a parte mais importante do artigo, em que pesem as informações técnicas precisas. Fala-se hoje que nunca se escutou tanta música, e tão mal. É verdade, exatamente pela enorme portabilidade da música, que traz consigo a perda intrínseca de detalhes. Pois, por mais que a tecnologia pareça milagrosa, há sempre um preço a ser pago.

Mas repito, esta constatação do tráfego (hoje às vezes) ilegal de arquivos na internet assumindo as funções do rádio soa óbvio (até em termos tecnológicos, já que a emissão de rádio também privilegia as frequências médias, perdendo qualidade em graves e agudos, assim como o MP3), diante da perda de qualidade vertiginosa da maioria das rádios tomadas pelo jabá das gravadoras e impedindo a passagem da maioria da criação independente. A geração atual então tratou de buscar seu próprio rádio. Rômulo Fróes, expoente desta geração, afirma:

A questão não é ter medo do sucesso, a questão é não querer demais o sucesso. Porque o sucesso como o conhecemos –da mitificação, do artista que entende e traduz uma nação- talvez não se realize mais. O nó dessa geração é que ela não precisa dialogar com o sucesso para produzir sua obra, talvez por isso mesmo nunca o alcance.

e

Não queremos canalizar nossa energia na construção de um pensamento, se de cara esse pensamento é dado como vencido e ultrapassado. Por isso, botamos nossa energia na construção de nossa música, gravando discos aos milhares e espalhando nossa música pela internet para levá-la até onde for possível. E essa força de produção já começa a dar resultado. Quem tiver interesse em ouvir e pensar essa nova música brasileira que vá atrás. Nós estamos fazendo nossa parte, produzindo e compartilhando essa nova música.

Ou seja, a Internet passa a ser o lugar onde a amostra da música pode ser ouvida e – sim – baixada, só que – e isto é importante – sem a melhor qualidade. O que motiva um público certamente menor do que o que baixou a ir ao show, comprar o CD, ou mesmo o LP, e fazer divulgação gratuita daquele trabalho a outras pessoas, na própria Net ou fora dela. Tudo estaria muito bem, se todos estivessem de acordo. Acontece que passamos por um período de transição, em que parte dos artistas não está disposto a mudar o modo com que atuaram e viveram – sem falar das indústrias que se criaram e lucraram sob esta égide. Direito deles, não?

Aí é que está: em boa parte, deixou de fazer sentido se é direito deles ou não. Porque a onda da mudança vem avassaladora, e pode-se apenas resistir parcialmente a ela, atrasá-la, mas não impedí-la. O Napster já foi, o Megaupload foi fechado, seus donos foram presos. Não vai adiantar, e isto não é uma previsão: assim como a de Neil Young, é uma constatação. A adaptaçao não se dá sem choques e injustiças, que o digam o atual Ministério da Cultura e nomes consagrados com Aldir Blanc, que esbravejam contra a pirataria que lhes tira dinheiro dos direitos autorais. Estão cobertos de razão, mas na contramão da história.

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