A Canção esgarçada e a canção expandida – Los Hermanos

O que George Harrison viu em Ana Júlia? Ora, o protótipo da canção romântica revisitada e rejuvenescida, ingênua e fortíssima como ela só. Ana Júlia é uma canção dos Beatles que se perdeu no tempo e no espaço, mas foi reencontrada e imediatamente reconhecida  por um de seus criadores – digo, criador do formato que ela obedece. Melodia pegajosa, letra direta, harmonia básica e bem sacada. Beatles, primeira fase. Hermanos, primeiro álbum.

Ana Júlia – Los Hermanos

Ana Júlia é uma canção de amor, como muitas outras dos Los Hermanos. Ou, por outro lado, às vezes tenho a impressão que todas as (vá lá, muitas das) canções dos Los Hermanos tratam do mesmo assunto, ou melhor, da mesma relação, sob variadas formas. E é isto mesmo que me interessa: as formas. Los Hermanos eram uma banda de rock?  Mais apropriado seria dizer que tocavam com formação de banda de rock um repertório com heranças inclusive da bossa-nova, sambas, marchas (Azedume) boleros (Veja bem, meu bem), e até rock.  No primeiro álbum eles brincam um bocado com estes clichês – e Ana Júlia pode ser considerada uma destas variações, a la Beatles, entre outras possibilidades. Mais tarde passaram a levar mais a sério, e os ingredientes se misturaram mais. Independente disso, começaram fazendo canções bastante convencionais – com formatos simples como o de Ana Júlia: primeira parte, ponte para o refrão, e uma surpresa na parte C, com mudança de andamento – o que também não é tão distante do estilo dos Beatles, afinal.

Corta para O Vencedor, canção do terceiro álbum, Ventura:

O Vencedor começa aparentando um formato tradicional, uma parte A bem definida que desemboca numa parte B, que vai para uma parte C, que vai para um instrumental em tom menor sem ligação direta com as partes anteriores, e sobre o qual entra uma parte D… e só então alguma repetição: o tema instrumental que fora fundo da parte B se repete, volta a parte C com outra letra, e termina. E isto tudo sem levar em consideração diversas pequenas variações nas estrofes. Que raio de forma é esta? É o inicio da desestruturação, em que as estrofes vão se desmanchando e desvencilhando do esquema da repetição.

E corta de novo, agora para Morena, do último álbum:

Em Morena, o processo já vai adiantado. A melodia vai toda a serviço de uma letra que também não é inteiramente objetiva – afinal, depois de três álbuns, não é mais preciso explicitar completamente o assunto. A canção simplesmente não tem forma fixa. Vai derivando de acorde para acorde, de palavra para palavra, de motivo para motivo, cada um gerando o seguinte, cada um derivando do anterior, chegando a tempo no acorde final igual ao inicial, que permite o único tema repetido na música: a introdução instrumental, que ajuda a forjar uma unidade no conjunto – unidade que, no entanto existe, independente disso.

Quem criou o conceito de canção expandida foram José Miguel Wisnik e Arthur Nestrowski. Wisnik a descreve assim:

A canção começa com um motivo, mas aí entra a parte sonora instrumental, sem palavras, e aquilo volta sem uma espécie de coesão evidente com o começo. A canção vai se derramando para vários lados.

Não é nada que já não tenha sido feito indo muito mais longe até, por grupos de rock progressivo. Mas estes faziam realmente rapsódias, enquanto aqui temos canções – apenas canções que não se repetem necessariamente, ou se repetem variadamente. E não pensemos que o Los Hermanos são um caso único. Tomo-os como exemplo para análise aqui pelo fato de terem sido destacados pelo Wisnik, autor do conceito. Mas ele mesmo identificou o Radiohead como trilhando a mesma direção, por vias, digamos, paralelas, explorando estas novas possibilidades de composição em seu trabalho.

Na virada do século XIX para o XX (isto mesmo, há mais de um século), quase todas as categorias artísticas, das artes plásticas à música, passaram por um processo de desestruturação de suas formas – na pintura o cubismo que desembocou no abstracionismo, na música a crise da tonalidade e em todas os desafios à formas tradicionais. Na chamada música erudita, digo. Entretanto, a música popular tende ao conservadorismo (tema a ser melhor explorado outro dia). A forma canção é um cânone que foi forjado ao longo do início do século XX, ao mesmo tempo que a forma musical erudita tradicional desmoronava. Parece ser agora, depois das aberturas de possibilidades do rap e da música eletrônica (lembro sempre de um álbum do Prince em que as faixas são denominadas simplesmente jams, ao invés de songs) o momento de a canção popular se expandir em novas possibilidades, sem perder sua identidade nem deixar de atingir o público. Se permitir desestruturar e reestruturar sob novas diretrizes, e se atualizar assim com algumas das conquistas que em outras categorias artísticas são bem antigas.

Duas observações para terminar: Primeiro,  ninguém vá imaginar que este caminho que desenho aqui seja linear. Obviamente, Marcelo Camelo não se tornou um compositor de canções desestruturadas, e pronto. Mesmo em seu trabalho mais recente, há canções de formato mais tradicional. O que pretendi tratar aqui é uma tendência que não é apenas dos Los Hermanos e muito menos só do Camelo, como já disse. Aliás, todos os álbuns dos Los Hermanos podem ser ouvidos no sítio da banda.

 E segundo, a primeira parte deste artigo analisa canções do Tom Jobim, aqui, e ninguém estranhe esta passagem abrupta para os Los Hermanos, que absolutamente  não caracteriza uma linha evolutiva direta entre ambos, e sim na canção em si. Tom estava no final de um estágio de desenvolvimento da forma canção, em que era mestre. Camelo, no início de outro estágio, em que é explorador, e mestres provavelmente ainda estão por vir. Vai ser divertido. Mal posso esperar.

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